As Farc-EP realizam o Congresso de Fundação de seu novo Partido

Colômbia

Sob o lema “Por um governo de transição para a reconciliação”, o líder das FARC-EP, Timoleón Jiménez, inaugurou neste domingo em Bogotá, o Congresso de fundação do novo partido político, no qual as FARC-EP se converterão, tal como estabelecido no Acordo Final de Paz.

Por Orsola Casagrande

Os 1.200 delegados e delegadas, eleitos pelos guerrilheiros, chegaram de todas as Áreas de Desmobilização. Para muitos, o Centro de Convenções Gonzalo Jiménez de Quesada, onde o Congresso está sendo realizado durante esta semana, também se tornou o local e a ocasião para rever camaradas que, de outra maneira, dificilmente reencontrariam.

A emoção foi sensível no auditório: sorrisos, abraços, milhares de fotos com este ou aquele, outro companheiro ou comandante. Os delegados sabem que este é um evento histórico. Muitas são as dificuldades. Em primeiro lugar devido às violações do governo de Juan Manuel Santos. Há falhas que promovem um clima de incerteza, há também a violência dos paramilitares, que é uma realidade, mas o governo continua a negar.

Apesar disso, os guerrilheiros e guerrilheiras das FARC-EP seguem firmes, em seu compromisso com o país, para construir uma Nova Colômbia.

Após os abraços e as trocas de notícias de uma região ou outra, dois guerrilheiros, no papel de mestres de cerimônia, convidaram todos os presentes no auditório a entoar o hino das FARC-EP, hino que até então era cantado às escondidas nos campos. A emoção cresceu junto com as vozes orgulhosas que tomaram o auditório.

Os delegados receberam saudações ao Congresso das delegações internacionais: o Partido Comunista do Brasil (leia aqui a saudação do PCdoB) e da Argentina, a Alianza País do Equador, e também partidos da Bolívia, México, Uruguai, Alemanha, Grécia, Porto Rico, Costa Rica e, claro, de Cuba, que juntamente com a Noruega foi um país que garantiu o processo de paz, ocorrido em Havana. O Partido Comunista Cubano saudou o novo partido que surgirá deste Congresso, confirmando que terá com ele relações oficiais. A Venezuela e o Chile, países acompanhantes, enviaram mensagens, assim como o Exército de Libertação Nacional (ELN), via vídeo.

Então, os apresentadores chamaram ao palco do líder das FARC-EP, Rodrigo Logroño, ou Timoleón Jiménez ou simplesmente Camarada Timo, que foi ovacionado, numa grande manifestação de carinho, nesta que foi a primeira aparição pública de Timochenko, após uma isquemia e o tratamento em Havana, por mais de um mês.

“Estamos dando um passo transcendental na história das lutas populares na Colômbia”, disse Timochenko. “As FARC-EP, um glorioso movimento revolucionário armado, surgido em 27 de maio de 1964, serão transformadas, a partir deste Congresso, em uma nova organização , exclusivamente política, que exercerá suas atividades por meios legais”.

Isso, porém, enfatizou o líder da guerrilha “não significa , de foma alguma, que renunciamos aos nossos fundamentos ideológicos ou ao projeto de sociedade que desejamos. Continuaremos sendo tão revolucionários quanto os marquetalianos*, a empunhar as bandeiras bolivarianas e seguiremos as tradições libertárias do nosso povo, para lutar pelo poder e levar a Colômbia ao pleno exercício de sua soberania nacional, tornando vigente a soberania popular”.

Sem ocultar as dificuldades, Timochenko ressaltou: “superamos o principal obstáculo da guerra, celebrando este Congresso publicamente, na capital do país, uma vitória real e inimaginável, anos atrás. Estamos diante de grandes desafios e muitas dificuldades”.

Serão necessários, declarou Timochenko, “a cabeça fria e as massas que nos respaldem em todos os espaços. Nossa missão fundamental será conquistá-las, sem elas o adversário fará o que quiser conosco, sem elas não conseguiremos mudar nada”.

A exortação do líder das FARC-EP foi então fazer deste, “um Congresso histórico, do qual saiamos mais unidos do que nunca, para realizar os nossos sonhos”.

Concluindo, entre aplausos, Timochenko acrescentou “a paz terá de ser uma realidade concreta na Colômbia, uma tarefa grandiosa nos espera”.

O Congresso elegerá a direção do Partido, aprovará suas linhas de ação e designará os 10 delegados que ocuparão seus assentos no Congresso da República, cinco em cada câmara, tal como concebido no Acordo de Paz com o Governo, assinado em 24 de novembro de 2016, em Havana, após mais de quatro anos de diálogo.

O Congresso será encerrado no próximo dia primeiro de setembro, com um grande ato de massas na Praça Bolívar, centro da capital colombiana.

* Referência ao município de Marquetalia, onde as Farc surgiram.

 

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