As motivações ideológicas dos ataques da mídia burguesa contra a China 

Opinião

“A burguesia brasileira busca avidamente o capital chinês. Mudou seu discurso para abrandar seu anticomunismo e reescreveu a história recente para acomodar uma narrativa onde ela foi a principal protagonista pela aproximação do Brasil com a China. Ironicamente esta é a mesma burguesia que antes torturava e matava comunistas e que hoje manda seus filhos para estudarem e fazerem a vida na China comunista. A mídia hegemônica brasileira fica, assim, pisando em ovos: modera um pouco o discurso para proteger interesses pragmáticos, mas não descuida do perigo ideológico que representa o país que mais cresce economicamente no mundo ser dirigido por um Partido Comunista.”

Por Gaio Doria* 

plenária PCChAs notícias sobre o 19º Congresso do Partido Comunista da China estampam as capas dos principais jornais do país. No entanto, essa chuva de interesse sobre seu maior parceiro comercial encontra forte obstáculo no notório desconhecimento do Brasil sobre os processos sócio-históricos da Ásia. Curiosamente, a burguesia brasileira – conservadora, liberal e anticomunista – que sempre se alinhou ao chamado “China-bashing” (espancar a China), linha editorial sustentada pelos grandes veículos de comunicação ocidentais cujo objetivo é deslegitimar o sistema socialista na China, decidiu abrandar o tom. Mas não sem apresentar contradições. 

Talvez o fenômeno seja fruto da “ironia histórica” vivida hoje no Brasil onde a sanha entreguista da burguesia anticomunista brasileira encontra-se com o capital oriundo da China. Mas se o pragmatismo força a cooperação dos golpistas brasileiros com o governo chinês, é de se esperar que “atos falhos ideológicos” apareçam nos principais jornais para dizer aos leitores aquilo que já não cabe bem, oficialmente, dizer nos editoriais. Desta forma se explica o porquê das matérias referentes à cobertura do 19º congresso variarem desde a simples tradução de agências internacionais até ensaios virulentamente anticomunistas, com adjetivos sobrando até para o Partido Comunista do Brasil. 

Folha de SP, por exemplo, publicou diversos artigos sobre o congresso do PCCh. Dentre estes, destaca-se um artigo escrito pelo jornalista Gilberto Scofield Jr, intitulado “Nuvens escuras sobre o Congresso do PC chinês”, publicado no dia 17 de outubro. O texto parece um comentário realizado sobre uma matéria do Financial Times com título semelhante, cujo foco é um bilionário dissidente – Guo Wengui – que supostamente resolveu colocar a boca no trombone. Curiosamente, o texto faz um contraponto ao artigo do embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang. Na versão impressa, ambos saíram ao lado um do outro. Na versão online, ambos partilham da mesma foto de Xi Jinping e estão inseridos em uma seção chamada tendências/debates. 

O debate, no entanto, não existe, pois não vemos uma preocupação em rebater ideias, mas sim de deslegitimar o artigo do embaixador Li Jinzhang através da utilização de uma figura dissidente. 

Não é segredo que o congresso do Partido Comunista da China pode ser considerado como o evento político mais importante do país, responsável por eleger as lideranças civis e militares e estabelecer a linha política do Partido.  

CHINACOMMUNIST_2640453bO 2º artigo da Constituição da República Popular da China estipula claramente que todo o poder pertence ao povo. O papel de liderança exercido pelo Partido Comunista da China está descrito no preâmbulo da Carta Magna chinesa. O socialismo é uma opção histórica realizada pelo povo chinês através de sua revolução e da construção socialista. O sucesso chinês jamais seria alcançado sem a liderança eficiente do Partido Comunista da China. 

Também é descabida a acusação, frequente na mídia burguesa ocidental, de que o sistema político chinês é uma farsa. A China, ao contrário das “democracias liberais”, não tem a audácia de proclamar sua democracia como perfeita. Assume que é um processo em construção e que há muito o que melhorar. No entanto, seu legislativo segue os princípios socialistas e revolucionários. Todos os representantes, do judiciário, legislativo e executivo são eleitos e podem ter seus mandados cassados a qualquer momento. 

Não podemos incorrer no erro de achar que o diferente significa a negação da democracia. A China optou pelo socialismo e seu sistema democrático se organiza de maneira diferente. Todos os chineses, independente do credo e etnia, maiores de 18 anos, podem votar e se candidatar para cargos eletivos. Ao invés de reproduzir a linha editorial euro-americana, sempre comprometida com objetivos políticos próprios, deveríamos nos focar em conhecer a China por nossas próprias lentes, sem a opinião de terceiros. 

Reparem que no Brasil, suposta democracia, o judiciário é uma casta separada da sociedade, sem qualquer auditoria da sociedade, com privilégios, na maioria das vezes, vitalícios. Na China isso não acontece, portanto devemos ir além dos chavões importados. 

Guo Wengui, novo "herói" da mídia hegemônica

Guo Wengui, novo “herói” da mídia hegemônica

Muitos críticos têm utilizado Guo Wengui (郭文贵) para deslegitimar o sistema político chinês. As mídias ocidentais têm repetidamente exaltado Guo como uma espécie de janela secreta para os meandros da política chinesa. O jornal Financial Times publicou no dia 17 de outubro, um dia antes do início do congresso, uma matéria, já mencionada anteriormente, intitulada “Exile Guo Wengui casts shadow over China’s party congress”, em português, “O exilado Guo Wengui lança sombras sobre o congresso do Partido da China”. A pergunta que paira no ar é: quem é exatamente esse Guo Wengui? 

Wikipedia o descreve como um bilionário chinês ligado ao grupo Beijing Zenith Holdings, no setor de construção civil, que se tornou um ativista político. Mas como sua consciência política foi despertada? Em 2015, o jornal chinês no ramo de finanças e negócios Caixin publicou uma reportagem investigativa onde acusa Guo de ser um oportunista sedento pelo poder (权力猎手 quánlì lièshǒu). O jornal argumenta que a carreira de Guo Wengui foi marcada pela utilização de redes de sociabilidade – comuns no contexto chinês – no mundo dos negócios e da política. Esta seria a razão principal por trás de seu sucesso empresarial, uma rede de padrinhos políticos e empresariais. Sua personalidade, segundo o relatório do jornal, seria a de um apostador arrogante. 

O fato é que antes da publicação da notícia, Guo Wengui se impôs um exílio. Foi morar em Nova Iorque em um apartamento milionário, onde esperou a poeira baixar para, em 2017, começar a lançar uma série de acusações contra a liderança chinesa. 

Serão essas acusações verdadeiras? Ao que parece não há provas substanciais destas alegações. Contudo, interessante é o fato de sua crise moral e despertar de consciência política ter ocorrido após um claro evento que contrariou seus interesses.  

Não demonstrou essa preocupação com o povo chinês, nem com o sistema político chinês enquanto ganhava seus bilhões. Exilou-se nos Estados Unidos, o maior antagonista da China, e agora posta fotos no Twitter com Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca na administração Trump. 

O que gerou a desgraça de Guo? Segundo o próprio, teria havido uma disputa de interesses com um membro sênior do Partido chamado He Guoqiang, supostamente o segundo maior acionista do Founder Securities. Sendo isso verdade, aconteceu uma disputa de poder onde Guo saiu como perdedor, talvez por desafiar forças acima de sua capacidade. Em suma, Guo Wengui é uma parte interessada no cenário político chinês. Não é possível levar suas acusações com seriedade e utilizá-las como fundamento para deslegitimar o sistema socialista na China. 

No entanto, é notória a dificuldade de penetrar nos bastidores da política chinesa. A verdade é que pouco realmente se sabe de sua dinâmica. Jornalistas e acadêmicos estrangeiros espremem notícias de seus informantes que muitas vezes as obtêm através de boatos oriundos de suas redes de sociabilidade. Alguns verdadeiros, outros não. Historicamente, os boatos têm ocupado um papel central na política chinesa desde tempos imperais, porém não podem ser tomados como verdade absoluta. 

Seja como for, disputa de interesses, corrupção e luta pela manutenção do poder são fatores existentes em todos os sistemas políticos. O que muda são as formas e maneiras com que os processos são conduzidos visando objetivos finais distintos, de acordo com o sistema em vigor. Nas democracias burguesas, a corrupção dos capitalistas é, via de regra, convenientemente encoberta e contornada, tanto por questões diretamente políticas, quanto por considerações de classe que levam em conta a preservação do sistema. Reportagem publicada no dia 19 de outubro de 2017, no jornal Valor, informa, por exemplo, que “um investigado (em crimes contra o sistema financeiro) pode propor acordo (monetário) sem admitir culpa”, em outras palavras, o crime financeiro de um burguês brasileiro corrupto pode ser relevado, mediante o pagamento de uma multa, geralmente simbólica. Assim, o meliante continua, diante da lei burguesa, tão inocente quanto um bebê. 

Portanto, com relação à questão da corrupção, é crucial não cairmos no moralismo barato. Evidentemente ninguém é a favor da corrupção ou de um sistema corrupto. Na China não é diferente. O Partido Comunista da China tem empreendido esforços substanciais para combater a corrupção no Partido e no Estado.  

O mesmo já não pode ser dito sobre a “democracia” estadunidense, onde somente UM banqueiro foi preso pela crise financeira de 2008. No Brasil, Aécio, Temer, entre outros, permanecem livres apesar de diversas acusações bem fundamentadas. Claro! Como não se tratam de sistemas comunistas permanece o silêncio dos inocentes. 

No Brasil os ataques velados e abertos contra “a herança do comunismo” ganham tons kafkianos. O Brasil que vive atualmente sob um governo ilegítimo que rifa as riquezas nacionais ao capital estrangeiro; que optou pela destruição de suas instituições democráticas e hoje goza de forte descrédito internacional; que legaliza a escravidão e odeia os trabalhadores e seus direitos conquistados sob muita luta; optou pelo comunismo chinês como principal parceiro comercial. 

A história é realmente cheia de ironias. Não faz muito tempo, a China buscava fazer diversos tipos de acordos com o Brasil, que antes de Lula a tratava com certo desdém. Hoje as coisas mudaram, a burguesia brasileira busca avidamente o capital chinês. Mudou seu discurso para abrandar seu anticomunismo e reescreveu a história recente para acomodar uma narrativa onde ela foi a principal protagonista pela aproximação do Brasil com a China. Ironicamente esta é a mesma burguesia que antes torturava e matava comunistas e que hoje manda seus filhos para estudarem e fazerem a vida na China comunista. 

A mídia hegemônica brasileira fica, assim, pisando em ovos: modera um pouco o discurso para proteger interesses pragmáticos, mas não descuida do perigo ideológico que representa o país que mais cresce economicamente no mundo ser dirigido por um Partido Comunista. No caso dos artigos publicados no Financial Times e Folha de SP, podemos ver, pela argumentação uníssona que fazem através da figura de Guo, que as acusações têm como parada final o questionamento do sistema socialista, diversas vezes denominado de cleptocracia. 

Os arautos da burguesia ocidental jamais dirigem este arsenal discursivo às doentes democracias ocidentais. As dinastias Clinton, Kennedy, Bush, entre outras, não incomodam. O problema é Xi Jinping, filho de Xi Zhongxun, que apesar de sua origem familiar, teve extensa experiência administrativa e pública antes de ocupar o cargo mais importante da China. Enquanto isso, a composição das câmaras legislativas das principais democracias liberais encontra-se recheada dos mesmos sobrenomes que insistem em se reproduzir ao longo do tempo. Porém, jamais se publicariam artigos, onde estes tipos de argumentos questionem a democracia liberal enquanto opção válida. 

Em suma, Guo é apenas mais uma ferramenta a serviço do aparato burguês ocidental dedicado ao ataque ao sistema socialista. Lembrando que, para Guo Wengui, o sistema foi muito bom enquanto o beneficiou. Essa história, no entanto, gera indagações pertinentes. Seria Guo um caso clássico das contradições geradas pela Reforma e Abertura, onde um burguês capitalista entra em choque direto com o poder do povo, representado pelo Partido Comunista da China? Uma pergunta que permanece sem resposta, mas merece investigação. 

* Gaio Doria é mestre em economia pela Universidade do Povo da China (Renmin), em Pequim, onde atualmente faz o doutorado em Filosofia Marxista; colaborador da Comissão de Política e Relações Internacionais do PCdoB e do site Resistência

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