José Reinaldo Carvalho: “Crise na Venezuela escancara diplomacia de pés descalços de Temer”

Entrevista

Aloysio Nunes atropela a Constituição federal ao assumir uma postura ingerencista diante da crise na Venezuela

A Venezuela vive uma de suas mais agudas crises políticas dos últimos tempos. Desde que a direita acirrou o combate contra Nicolás Maduro, mais de cem pessoas foram mortas em manifestações, a escassez de alimentos e medicamentos é cada vez mais grave e a inflação atinge níveis exorbitantes. O Brasil da integração tentaria amenizar o conflito e promover o diálogo, mas o Brasil de Michel Temer coloca lenha na fogueira e busca desestabilizar o presidente do país vizinho.

Por Mariana Serafini

Para o secretário nacional de Relações Internacionais do PCdoB, José Reinaldo Carvalho, a posição do Brasil diante da crise venezuelana é de quem faz uma “diplomacia de pés descalços”. Isso porque “é submissa aos interesses imperialistas e, junto às elites locais, age de forma ingerencista para interferir nos assuntos internos da Venezuela”.

“O Brasil tem uma escola diplomática alinhada ao direito internacional que respeita a autodeterminação dos Estados Nacionais e dos povos. Raras vezes em nossa história estes paradigmas foram desrespeitados: em poucos casos na ditadura militar, no governo de Fernando Henrique e agora, uma vez mais, exerce essa diplomacia submissa que fere nossos princípios constitucionais”, denuncia o dirigente.

A Constituição Brasileira assegura que o Brasil não deve, nunca, interferir nos assuntos internos de outros Estados soberanos. Trata-se de uma política externa voltada à mediação de conflitos e fortalecimento do diálogo. Exatamente o oposto do que o Michel Temer e seu chanceler Aloysio Nunes estão fazendo no caso da Venezuela.

“O Partido Comunista condena a ingerência dos países imperialistas e dos países do Mercosul nos assuntos da Venezuela e condena, especialmente, o governo brasileiro que não tem moral para impor regras democráticas a ninguém porque é um governo ilegítimo”, diz José Reinaldo.

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Para o secretário, cabe à esquerda apoiar a autodeterminação dos povos e os rumos que os venezuelanos escolheram para trilhar o socialismo. Neste caso, a revolução bolivariana que agora se aprofunda através da Assembleia Nacional Constituinte. Neste sentido, ele condena os setores da esquerda brasileira que “se acovardam diante da questão da Venezuela e passam a fazer coro com o imperialismo ao dizer que o governo [de Nicolás Maduro] é uma ditadura e passam a exigir também a derrocada da revolução bolivariana. Nosso partido condena estas forças que, se apresentando como esquerda, na prática fazem o jogo do inimigo. Tanto as que se manifestam abertamente, como as que se acovardam e se recusam a praticar a solidariedade com a Venezuela”.

José Reinaldo defende que os internacionalistas devem, antes de tudo, apoiar os esforços do povo venezuelano de lutar por sua independência. “Consideramos que a revolução bolivariana merece solidariedade plena, irrestrita e incondicional. O povo venezuelano tem o direito de elaborar, ele próprio, seu caminho de construção do socialismo”.

Elites locais aliadas aos interesses imperialistas

Desde que a direita ganhou a maioria parlamentar no Congresso venezuelano, em 2015, os ataques contra o governo de Nicolás Maduro se intensificaram. Na visão de José Reinaldo, isso aconteceu porque, ao conquistar este espaço, a elite local acreditou que seria “fácil” neutralizar as ações da revolução bolivariana. Porém, em constante diálogo com as bases, o Grande Polo Patriótico – coalizão progressista que une além do PSUV e do Partido Comunista, os demais partidos de esquerda do país – conseguiu manter sua inserção popular e não perder espaço político diante das tentativas desestabilizadoras da direita.

“Ao não conseguir neutralizar as ações da revolução, a direita local chegou à conclusão de que a única forma de interromper este processo seria liquidando o governo de Nicolás Maduro e desde então eles estão implacáveis com este objetivo”.

Manifestantes da direita fomentam a violência nas ruas de Caracas

Manifestantes da direita fomentam a violência nas ruas de Caracas

As ações da elite venezuelana respondem diretamente aos interesses norte-americanos de dominar a política local e ampliar seus tentáculos em toda a América Latina. A Venezuela tem, atualmente, a maior reserva de petróleo do mundo, e uma das maiores reservas de gás natural, perde apenas para o Catar, que também está sob a mira imperialista. Esta é “uma riqueza estratégica”.

Uma das primeiras ações de Hugo Chávez, ao assumir a presidência em 1999, foi nacionalizar a indústria nacional de petróleo. Com isso, o governo conseguiu os recursos necessários para empreender as chamadas Missões e Grandes Missões, ou seja, os programas sociais que garantiram distribuição de renda e inclusão da população mais pobre. Para José Reinaldo, o petróleo é ponto chave do desenvolvimento social justo da Venezuela e também do protagonismo do país no campo geopolítico, onde tem atuado de forma bilateral solidária com outros estados.

“Com o petróleo a Venezuela conseguiu desenvolver muitas ações internas e de integração, como a Alba [Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América] e a Petrocaribe, além de convênios bilaterais com uma série de países. Estes são convênios solidários, não baseados apenas nas leis cegas do mercado. Então o peso que a Venezuela tem nesta questão energética é grande”.

José Reinaldo é enfático ao afirmar que “o que está acontecendo agora no país vizinho é mais um momento agudo da contrarrevolução tentando reverter as conquistas da revolução bolivariana. Está evidente que eles [a direita] tomaram a decisão de realmente derrubar o governo porque chegaram à conclusão de que só assim poderão conter a revolução”.

Diante do cenário turbulento, José Reinaldo destaca que a revolução iniciada por Hugo Chávez já passou por muitos momentos de turbulência, o maior deles talvez tenha sido o golpe de estado de 2002, quando o presidente foi sequestrado. E esta onda de desestabilizações que assola o país agora é mais uma destas tentativas de barrar as conquistas populares. “Esta revolução não estava em nenhum manual e nem se assemelha a qualquer outra revolução que tenha ocorrido no século 20. É uma revolução muito original com caráter nacionalista, independentista e anti-imperialista”.

Fonte: Portal Vermelho

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