Opinião

Destruição dos princípios éticos e das instituições democráticas

20/05/2016

A sala da Casa do Alentejo, em Lisboa, foi pequena para receber os deputados latino-americanos e o caloroso abraço de velhos e novos comunistas, sindicalistas, amigos, militantes das causas populares que nunca abandonam luta solidária.

Zillah Branco*

Os presentes comentavam: “Para receber todo um Continente deveríamos ter organizado um comício em praça pública para trazer os mais de 100 mil que em Portugal sempre oferecem a sua solidariedade à luta revolucionária que estes deputados da América Latina estão representando”.

Os portugueses superam as suas dificuldades impostas pela UE – fração do imperialismo – para darem o apoio solidário aos latino-americanos e receberem o impulso da luta que aqueles povos hoje desenvolvem para evitar que a democracia social e a independência nacional, criadas por tantos governos progressistas, sejam destruídas pelas diferentes formas de golpe alimentadas pelo imperialismo.

Cada um dos mais de 20 deputados e senadores da América do Sul, Central e Caraíbas, relatou com cores vivas as diferentes condições que herdaram dos 500 anos de colonialismo e exploração neo-capitalista que as oligarquias subservientes ao sistema financeiro internacional insistem em manter, contra a força dos povos na defesa por melhores condições de vida que conduza ao desenvolvimento da cidadania e à independência da pátria em que nasceram. Desde a ameaça militar que a Venezuela sofre, o bloqueio econômico que persiste em Cuba, ao retrocesso imposto à Argentina com a eleição do amigo de Obama, às pressões da mídia e de um sistema de corrupção dirigido pelas multinacionais para romperem o poder judicial em todos os países e conduzir as campanhas eleitorais, até ao “golpe branco”, que afastou a Presidente Dilma com um falso processo de impeachment, e criar um governo não eleito com ministros da oposição, crimes que se somam à prática de incapacitação de mulheres camponesas para a procriação no Peru durante o governo Fujimori, foram expostos as várias faces da violência fascista que uma elite poderosa no sistema capitalista vem utilizando como arma política contra a humanidade.

Tal como foram provocadas as “primaveras” que destruíram sociedades do leste europeu, do Oriente Médio e Norte da Africa, o imperialismo volta-se contra a América Latina que tem provado a capacidade dos povos de saírem da miséria e desenvolverem a sua economia independente das traiçoeiras ajudas financeiras oferecidas pelas instituições bancárias multinacionais que destroem as nações atoladas na austeridade assassina.

Querem voltar no tempo em que as nações eram mantidas como subdesenvolvidas para servirem de “quintal” para os ricos norte-americanos. Não percebem que a História não gira para trás, que as consciências de luta dos povos não se apagam, que as novas gerações que hoje estão nas ruas defendendo as escolas públicas e os colegas que puderam vencer os preconceitos raciais, de gênero, de classe, de etnia, não aceitarão um governo de traidores pérfidos e covardes mesmo que os seus pais lá estejam por ambição mesquinha de um poder falido.

O maquiavelismo do poder instaurado no cerne do sistema capitalista não tem limites no uso meticuloso de uma deformação psicológica imposta através dos meios de comunicação social que ha dezenas de anos conduz a informação levada às populações através da televisão e de livros para alterar a cultura e inocular a consciência individualista e alienada. Nos meios mais pobres a prática psicológica é substituida pelo bisturí que aleija o aparelho reprodutor das mulheres (como foi feito durante o governo Fugimori no Perú) ou por medicamentos venenosos que dizimam populações nos continentes africano e asiático ainda hoje, como cobaias humanas de uma indústria farmacêutica corrompida. Estas iniciativas tornaram-se conhecidas logo após a Segunda Guerra nas missões norte-americanas à que deram o nome de “Paz e Progresso”. Distribuíam leite em pó e medicamentos nos continentes do então chamado “Terceiro Mundo”.

No entanto, a guerra liderada por Hitler foi vencida pelos soldados soviéticos que foram seguidos pelos “aliados ocidentais” inimigos da Revolução Socialista que expandiu a luta pelos direitos humanos, pela legislação do trabalho, pela igualdade de gênero e de raças, pela democracia social e a distribuição de rendimentos. E cada povo criou as suas organizações e passou a lutar pelos seus direitos e pela independência da sua pátria. O poder imperialista definiu-se em torno da acumulação do capital e do sistema financeiro transnacional e não desiste de combater o sistema socialista.

Mas há muito por fazer. Em primeiro lugar, para compreender as falsas ofertas feitas pela elite. Assim como oferece ajuda financeira com baixos juros até conseguir que os clientes percam a independência de viver por conta própria, produzem uma literatura ou notícias e filmes com aparência de solidárias com quem luta contra as garras do sistema. Aos poucos vão destruindo os princípios éticos – para justificar traições, roubos e todo tipo de crime – e a confiança nos que continuam a lutar mesmo suportando sacrifícios e risco de vida, apontando-os como ingênuos ou simplórios. Tentam demonstrar que a elite capitalista é que entende a realidade e sabe como conduzir a gestão da economia para salvar a humanidade (pobre e escravizada, claro). Assim fala o agora ministro da Fazenda no governo golpista como porta-voz dos bancos internacionais, como também os que dirigem o Banco Central Europeu que pretendem dar ordens a todas as nações europeias desconhecendo a soberania nacional de cada povo. Fazem de conta que não existe soberania nacional e que a democracia é autorizada pela elite por caridade.

Não lhes passa pela cabeça que os povos quando libertam a consciência da sua força, percebem que os poderosos inventam uma lógica de pensamento que nada tem com a realidade em que vive a maioria. É a lógica dos ricos que vivem da exploração e não deixam tempo para os escravos pensarem e conhecerem a sua realidade, a verdadeira realidade que permite a vida à toda a humanidade. Não é a riqueza acumulada que garante a sobrevivência dos seres humanos, é o trabalho produtivo de todos os adultos a partir dos recursos naturais que nos cercam. O sistema capitalista impõe a lógica do dinheiro para ocultar a lógica da liberdade de trabalhar que vence todas as formas de exploração. A função do Estado é Social, e o sistema do futuro é socialista para dar oportunidade a todos os cidadãos de terem boas condições de vida sem exploração.

Um exemplo, entre muitos, de literaturas enganosas como créditos de juros baixos: O autor britânico John Le Carré, que pertenceu ao corpo diplomático do seu país, escreve livros com denúncias contra organismos de segurança do Reino Unido que funcionam em permanente conluio com as gangues e mafias assassinas que sustentam instituições ligadas à investigação científica e á produção de medicamentos. Constrói com habilidade romances em que os movimentos de solidariedade envolvem pessoas ingênuas que dão a vida por causas humanitárias e sórdidos oportunistas que vendem informações às máfias sob a vista complacente dos funcionários da segurança britânica. Com uma bela estória denúncia como inoperantes duas esperanças para quem luta pela humanidade: os “ingênuos” e “ineficazes” movimentos de solidariedade e as “instituições do Estado democrático”. Falso, como o processo de impeachment inventado contra Dilma! O objetivo das mentiras políticas é liquidar as bases do regime democrático existente, as instituições sociais, as leis e justiça, as organizações de luta popular.

Quando uma sociedade amadurece os seus conceitos de democracia e as suas organizações políticas e sociais, como ocorreu com o Brasil, e começa a consolidar um Estado democrático que combate a exclusão social com os direitos de cidadania, com educação, saúde, cultura, infra-estrutura para o desenvolvimento social e econômico, habitação, salário, previdência social, distribuição de renda, sistema judicial, o golpe assume a função de desacreditar as instituições para que a democracia desapareça de cena deixando o povo perdido em um território vazio de leis em que os golpistas assumem o papel de salvadores do caos.

Entramos na órbita de um programa comandado por ETs? Não, reunimos as massas populares e tomamos a iniciativa de reorganizar um governo brasileiro, democrático, patriota, unido aos demais governos progressistas que existem na América Latina e no mundo, como foi proposto pelos representantes recebidos em Lisboa no dia 17 de Maio.

* Cientista Social, consultora do Cebrapaz

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