Opinião

Dez Dias que Abalaram o Mundo – John Reed – jornalista, escritor, revolucionário

03/08/2017

“Encontrava-se na barricada.

A sua arma foi o lápis, como a do ferreiro

que estava ao seu lado foi talvez o martelo.”

Egon Erwin Kisch (1)

Numa curta introdução à obra imortal de John Reed, Lênin escreve: “Foi com o maior interesse e sem que a minha atenção abrandasse um só momento que li o livro de John Reed, Dez Dias que Abalaram o Mundo. Recomendo sem reservas a sua leitura aos operários do mudo inteiro. Eis um livro que gostaria de ver publicado em milhões de exemplares e traduzido em todas as línguas. Ele apresenta uma explicação verdadeira e muito viva de acontecimentos muito importantes para a compreensão do que é realmente a revolução proletária e a ditadura do proletariado. Estes problemas estão largamente discutidos, mas antes de se aceitar ou rejeitar estas ideias é necessário compreender todo o significado da decisão. O livro de John Reed ajudará indubitavelmente a esclarecer esta questão, que é o problema fundamental do movimento operário universal.” (2)

Por Maria da Piedade Morgadinho

John Reed nasceu a 22 de Outubro de 1887, numa família burguesa americana, filho de um rico capitalista de Portland, no estado de Oregon. Completou os seus estudos em direito na Universidade de Harward. Ainda estudante fundou, com outros colegas, um clube socialista e escandalizava a família quando, em férias, procurava o convívio dos trabalhadores. Simultaneamente desenvolveu intensa atividade literária escrevendo novelas, contos, poesia e artigos como redator do órgão radical The American Journal. Em 1912, com 25 anos, é enviado como correspondente para o México, que atravessava uma situação revolucionária.

Da sua estadia aí, do contato com os revolucionários de Pancho Villa resultou o seu livro México em revolta.

A sua colaboração em vários jornais e revistas nem sempre foi fácil devido às convicções políticas expressas em tudo o que escrevia e às atividades que desenvolvia.

Não houve movimento social de protesto, greve, luta reivindicativa, comício ou manifestação em que não participasse ou estivesse envolvido sempre ao lado dos trabalhadores. Foi assim, nas campanhas que desenvolveu, nos artigos que escrevia em defesa da classe operária e denunciando os crimes dos grandes capitalistas.

Tinha então 27 anos quando enfrentou, por mais de uma vez, com grande coragem moral e física, o grande magnata Rockefeller da Standard Oil Company que mandou assassinar operários em greve nos seus poços petrolíferos e, de noite, mandou regar com petróleo e incendiar os acampamentos onde estavam as suas mulheres e filhos em apoio aos grevistas, muitas das quais perderam a vida.

Em 1914, quando começou a Primeira Guerra Mundial, foi para a Europa como correspondente de guerra, e, nesse mesmo ano, foi para a Rússia onde esteve preso por ter denunciado os pogroms anti-semitas do Czar.

Entre as muitas idas e vindas ao seu país e à Europa, em viagens acidentadas, perigosas, por um mundo em guerra, John Reed colaborou em vários jornais e revistas de esquerda americanas. Denunciou e condenou vigorosamente o militarismo e a guerra imperialista. Foi perseguido, processado, preso, levado a tribunal, julgado à revelia, e acusado no seu país de traição à pátria.

Encontrava-se na Rússia, em 1917, quando eclodiu a Revolução de Outubro.

Atraído desde o primeiro dia por este acontecimento histórico, único no mundo, que se desenrolava perante os seus olhos, John Reed, jornalista e revolucionário, mergulhou em cheio nos tumultuosos dias da revolução, numa atividade febril, e deixou-nos essa obra imorredoura Dez Dias Que Abalaram o Mundo.

Depois do triunfo da Revolução Socialista de Outubro e da conquista do poder pelos bolcheviques trabalhou no Comissariado do Povo para os Negócios Estrangeiros ligado à propaganda revolucionária nos países anglo-saxônicos.

Defendeu, de armas na mão, o edifício do Comissariado quando os socialistas-revolucionários e grupos reacionários tentaram tomá-lo de assalto.

Em 1919, John Reed foi um dos fundadores do Partido Comunista dos Estados Unidos e fez parte da sua direção. Perseguido, tal como outros seus camaradas, teve um importante papel na implantação do partido nos principais centros operários americanos.

Em 1919, representando o Partido, participou nos trabalhos do Comitê Executivo da Internacional Comunista, em Moscou. Junto com outros delegados foi a Baku participar no Congresso dos Povos do Oriente. Regressou a Moscou e, gravemente doente – havia contraído o tifo –, morreu a 17 de Outubro de 1920, aos 33 anos.

Teve honras de funeral de Estado e foi sepultado junto à muralha do Kremlin.

Como escreveu o seu camarada e companheiro de luta – também ele repórter de guerra e que se encontrava na Rússia – o jornalista Egon Erwin Kisch:

“Acontece raramente que uma parte de verdade tão importante como os combates de Outubro do proletariado encontre um temperamento tão revolucionário como o de John Reed”.

“Na Praça Vermelha de Moscou junto da muralha do Kremlin, foi sepultado o filho dos burgueses americanos cujo coração era revolucionário…”.

“John Reed não teria desejado para sepultura outro lugar que o que encontrou ao lado do túmulo de Lênin.” (3)

No último capítulo, o XII, do seu livro Dez Dias Que Abalaram o Mundo, John Reed, de forma magistral, descreve o histórico Congresso dos Camponeses cujo desfecho foi fundamental no desenvolvimento da Revolução Socialista e contribuiu decisivamente para a sua vitória.

Após a aprovação dos Decretos sobre a Paz, sobre a Terra e sobre o Controle Operário, a preocupação do poder dos Sovietes e do Partido Bolchevique foi a convocação de um Congresso Camponês.

Escreve John Reed: “Sentia-se em todas as aldeias um fermento de mudança, resultante não apenas da ação electrizante do Decreto da Terra, mas também do regresso da Frente de milhares de soldados-camponeses imbuídos de um espírito revolucionário… Foram sobretudo estes homens que ficaram satisfeitos com a convocação de um Congresso de Camponeses.” (4)

Os trabalhos do Congresso prolongaram-se por vários dias (23-29 de Novembro), em sessões contínuas, por vezes pela noite dentro, com debates acesos, confrontos violentos, entre delegados bolcheviques e socialistas-revolucionários de esquerda e de direita (oportunistas).

No desenrolar da Revolução constituíram-se numerosos Sovietes de operários e soldados, assim como Sovietes de camponeses, nos quais os socialistas-revolucionários tinham grande influência.

Esta situação foi aproveitada pelas forças contra-revolucionárias que procuravam a todo o custo impedir e fazer fracassar as medidas revolucionárias dos bolcheviques, particularmente o Decreto sobre a Terra.

Para o desenvolvimento vitorioso da Revolução Socialista e contra os seus inimigos a unificação dos Sovietes de Operários e Soldados, onde os bolcheviques estavam em maioria, com os Sovietes de Camponeses era uma questão crucial e urgente.

No primeiro dia do Congresso, a primeira votação demonstrou que mais de metade de todos os delegados era de socialistas-revolucionários de esquerda, ao passo que os bolcheviques contavam apenas com um quinto. A maioria dos delegados era hostil ao Governo de Comissários do Povo, presidido por Lênin, recusava-se a reconhecer o Governo e as suas principais leis revolucionárias: os Decretos sobre a Paz, sobre a Terra e sobre o Controle Operário.

No decorrer do Congresso foram decisivas as intervenções de Lênin que, numa voz calma mas firme, num discurso claro, acutilante, e sólida argumentação, explicou aos camponeses que a condição indispensável para a vitória da revolução socialista, a única capaz de assegurar o êxito total do Decreto sobre a Terra, era a união estreita dos trabalhadores explorados do campo com a classe operária.

Foi só na noite de 29 de Novembro, depois de acalorados debates, encontros, conversações, mas já em ambiente de festa, que em sessão extraordinária, os delegados ao Congresso chegaram finalmente a acordo e aprovaram o Decreto sobre a Paz, o Decreto sobre a Terra e o Decreto sobre o Controlo Operário.

Selava-se, assim, a união entre os Sovietes de Camponeses com os Sovietes de Operários e Soldados.

A aliança da classe operária com o campesinato era uma causa ganha para a construção do socialismo.

O Congresso aprovou ainda uma declaração conjunta do Congresso e do Governo revolucionário em que se expressava a firme convicção “de que a unidade dos operários, soldados e camponeses, esta unidade fraterna de todos os trabalhadores e de todos os explorados consolidará o poder por eles conquistado, tomará todas as medidas revolucionárias para apressar a transferência do poder para as mãos da classe operária noutros países e assegurará desse modo a concretização duradoura de uma paz justa e a vitória do Socialismo.” (5)

Notas

(1) Egon Erwin Kisch, jornalista, escritor, repórter de guerra, de origem austríaca, nasceu em 1885 em Praga e morreu em 1948 em Praga na República Democrática e Popular da Checoslováquia.

(2) John Reed, Dez Dias Que Abalaram o Mundo, Editorial “Avante!”, Coleção Caminhos da Revolução, 1977, p. 25.

(3) Prefácio de Egon Erwin Kisch à edição portuguesa de Dez Dias Que Abalaram o Mundo, de 1930, da “Biblioteca Cosmopolita”. Edição composta e impressa nas Oficinas Gráficas, Rua do Século, 150, Lisboa, p. 22.

(4) Idem, John Reed, Dez Dias Que Abalaram o Mundo, p. 269.

(5) Idem, p. 280.

Fonte: O Militante, Revista Teórica do Partido Comunista Português

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