EUA, estratégia da tensão

Opinião

Será que a política dos EUA é fundamentalmente determinada por um presidente “paranoico” e por uma administração “incoerente e errática”? Essa tem sido fundamentalmente a visão promovida pela comunicação social dominante que, passando ao lado da natureza de classe do sistema de poder norte-americano, dá cobertura e banaliza os mais graves atentados dos EUA à Carta da ONU e ao Direito Internacional.

Por Albano Nunes

Mas aquilo com que o mundo está confrontado não é simplesmente com os humores de um presidente ultra-reacionário e megalômano nem com um governo onde campeiam a ignorância e o aventureirismo. É com o imperialismo norte-americano, é com uma superpotência empenhada numa perigosa fuga para diante como resposta ao aprofundamento da crise estrutural do sistema e ao declínio do poder relativo dos EUA no quadro de uma formidável rearrumação de forças no plano mundial.

Vem isto a propósito do discurso de Donald Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, inédito pela arrogância e pela retórica insultuosa e trauliteira, um discurso que pela forma é de uma inqualificável grosseria e cujo conteúdo é revelador da estratégia de agudização da tensão internacional em que o imperialismo norte-americano está empenhado. A ameaça de “destruir totalmente a Coreia do Norte” quando praticamente todo o mundo rejeita uma solução militar e considera necessário dar garantias de segurança à RPDC e encetar negociações com vista a uma solução política do conflito; afirmações provocatórias em relação ao Irã pondo em causa o acordo de 2015 orientado precisamente para impedir a proliferação nuclear, bandeira que os EUA têm cinicamente empunhado para submeter quem lhes resista; a ameaça de intervenção militar na Venezuela para destruir a revolução bolivariana; a inadmissível retórica de confrontação classificando países soberanos e membros da ONU de “estados párias” e “bandos de criminosos”, tudo isto confirma que o imperialismo norte-americano está lançado numa deriva agressiva sem precedentes.

A “defesa dos direitos humanos” e a “guerra ao terrorismo” estão cada vez mais desmascarados como cobertura ao papel de “gendarme mundial” de que se arrogam os EUA e o agravamento da tensão em vários pontos do mundo e no plano mundial serve às maravilhas a política do “America first” que impera em Washington: combater o crescente papel da China e de outras potências emergentes, afirmar a hegemonia junto dos seus próprios aliados (nomeadamente Otan e União Europeia), impor medidas no plano do comércio mundial ainda mais favoráveis aos monopólios dos EUA, dominar fontes de energia e matérias-primas e, particularmente, desenvolver a corrida aos armamentos e realizar mega-negócios com a venda de armas. É cada vez mais claro que neste domínio Trump segue as pisadas de Obama e de anteriores presidentes. É significativo que o discurso de Trump na ONU tenha coincidido com a aprovação pelo Senado dos EUA de um gigantesco orçamento militar de 700 bilhões de dólares. O número de generais na administração Trump diz muito sobre o peso do complexo-militar industrial na economia e na política externa norte-americanas. É aí que reside a fonte dos maiores perigos para a segurança internacional e a paz.

Fonte: Avante!

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