Cuba

Fernando Martínez Heredia: Fidel vive

29/11/2016

Na noite do dia 25 de novembro, sessenta anos depois que deixou Tuxpan, à frente da expedição libertadora, Fidel Castro fez uma nova viagem.

Por Fernando Martínez Heredia*, em Cubadebate

Três anos antes do Granma, conduzira uma ação revolucionária que surpreendeu o país com a ousadia, a coragem e o espírito de sacrifício de seus participantes, ensejando a rejeição da orgia aos crimes praticados pela ditadura implementada em 1952. Mas esse fato parecia ir contra o que se considerava possível e nenhuma força política o apoiou.

Na solidão de sua cela Fidel – ele e seus camaradas estavam praticamente sozinhos – escreveu: “As massas estão prontas, precisam apenas que lhes seja mostrado o caminho certo”. Parecia um sonhador, na verdade era um visionário.

Ao iniciar a guerra revolucionária, Fidel abriu a brecha para que o impossível deixasse de sê-lo e deu lugar ao levante popular, abrindo espaço para a luta a todos aqueles que convergissem em ideias e ações revolucionárias e que tivessem o objetivo de transformar seus ideais em ação. Em junho de 1958, quando, para a grande ofensiva inimiga, esmagar a vanguarda da Sierra Maestra era uma questão de vida ou morte, Fidel escreveu a Celia Sanchez[1] dizendo que lutar contra o imperialismo norte-americano viria a se tornar seu verdadeiro destino.

Novamente Fidel via mais longe que todos, conjecturava, mas agora com uma arma na mão e a revolução deflagrada.

Honrou obstinadamente a promessa implícita naquelas palavras. Lutou durante toda a sua vida contra o imperialismo norte-americano e soube vencê-lo, detê-lo, forçando-o a reconhecer o poder e a grandeza moral da pátria cubana. Mas, acima de tudo, ensinou todos os cubanos a serem anti-imperialistas, ou seja, que o anti-imperialismo é requisito fundamental para a condição cubana, e combatê-lo é uma ordem perene. Como disse Che, seu companheiro fraterno, não é possível fazer a menor concessão ao imperialismo. Esta é uma política revolucionária permanente.

Fidel nos ensinou que a soberania nacional é intangível e não se negocia.

A partir do triunfo, a vanguarda foi se convertendo em milhões e a exploração do trabalho, a humilhação, a discriminação e o menosprezo deixaram de ser ocorrências naturais e tornaram-se crimes. Fidel foi o principal protagonista da grande revolução socialista e mudou a vida, as relações sociais e os sonhos do povo, das famílias, das comunidades e da nação cubana. Para alcançar esta meta, tornou-se o comandante, o condutor, o educador popular, o líder amado, a peça principal desse intrincado tabuleiro que é a unidade de todos os revolucionários e do povo.

Foi necessário unir o socialismo e a libertação nacional em uma única revolução. Naquele momento, a ação teve de consistir, simultaneamente, em estudo teórico, trabalho e fuzil. Os indivíduos de vanguarda eram eleitos em assembleias e o trabalho realizado era o maior símbolo da honra revolucionária. Estávamos todos unidos nas grandes jornadas. Fidel foi – como cantara o poeta – a mira do fuzil e, todo o povo – como declarou Che –tornou-se um Maceo[2]. E, ao contrário de veículos comuns, o carro da Revolução não tem marcha ré. Fidel declarou, sem rodeios, há mais de vinte anos, que uma nova classe rica jamais voltaria a dominar a nação cubana.

A nova e maior vitória de Fidel foi que todo o povo se transformou, passou a demonstrar novas qualidades intrínsecas e a consciência social passou a usar, sem medo e da mesma forma, palavras como comunista e fidelista. À sombra de Fidel, conquistas converteram-se em leis e leis em costumes.

Um grande historiador peruano, um companheiro mariateguista[3], estava preocupado com um possível culto à personalidade de Fidel, mas após percorrer a ilha, declarou: “Agora entendo tudo. Fidel é um pseudônimo do coletivo”.

Fidel foi o maior impulsionador e a maior liderança do internacionalismo, esse súbito e belo crescimento das qualidades humanas que brinda mais àquele que o presta do que ao que o recebe. Contudo, para além das grandes frases – “pelo Vietnã estamos dispostos a dar o nosso próprio sangue” ou “não queremos construir um paraíso nas encostas de um vulcão” – Fidel expandiu e desenvolveu, em altíssimo grau, o conteúdo e o alcance das práticas e ideias revolucionárias mundiais por meio do internacionalismo cubano. Um apoio solidário, sem exigências, com o oferecimento de combatentes, médicos, professores, técnicos, exemplo ímpar de quem nunca deu do que lhe sobrava, um paradigma revolucionário, com Fidel sempre à frente, audacioso e fraterno.

Em 2006, acometido de uma doença muito grave, tomou decisões que ninguém pedira ou quisera. Mostrou-se ainda maior quando, por vontade própria, deixou de ser o líder do Estado e do Partido, uma posição em que estivera servindo há tantos anos. Já há muito tempo, o seu imenso prestígio havia transcendido todas as fronteiras.

Em seguida, Fidel concedeu a si próprio um pouco daquilo que conscientemente havia se privado desde o início da sua ação revolucionária: a reflexão tranquila, sem a urgência e a responsabilidade de decidir e agir de imediato.  O homem que teve de ser um combatente para que houvesse liberdade e justiça para todos, e exercer um enorme controle para que o poder trabalhasse a serviço do projeto libertário, naquele momento tornava-se um soldado das ideias, enquanto continuava a brindar o povo cubano com a energia de sua incomensurável força moral.

Agora, ao que parece, por agora, já não está entre nós, porque partiu em uma expedição mais longa e distante. Porém, atrevo-me a dizer que não estava preocupado ao partir. Certamente, com base em seu prodigioso otimismo histórico, Fidel sabia que seu povo sempre estará à frente da nação, ao lado de seu mestre, José Martí. Sabia também que, para seguir sempre seus ensinamentos, as filhas e os filhos desta pátria criarão, como fazia ele, arbitrarão soluções, como fazia ele, e encontrarão e lidarão bem com novos problemas, como fazia ele, derrotarão o impossível, como fazia ele, defenderão a justiça e a liberdade a qualquer custo, como fazia ele, se sentirão parte da humanidade que resiste e luta, como fazia ele, e sonharão, como ele, com um futuro brilhante.

Fidel não está morto! Nem morrerá, porque o manteremos vivo.

[1] Celia Sánchez Manduley, cubana, fundadora e dirigente do Movimento 26 de Julho, foi a primeira guerrilheira da Sierra Maestra. (N.T.)

[2] Antonio Maceo, (Santiago de Cuba, 1845 – Punta Brava, Cuba, 1896) Militar, revolucionário e patriota cubano. 9N.T.)

[3] José Carlos Mariátegui La Chira (Moquegua, 1894 – 1930). Escritor, jornalista, sociólogo e revolucionário peruano.

*Escritor cubano; tradução de Maria Helena d´Eugênio, para o Resistência

 

 

 

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