Opinião

Manlio Dinucci: Não à reforma belicista da Constituição italiana

08/12/2016

A maioria dos italianos, desafiando os fortes poderes alinhados com Renzi, frustrou o seu plano de reforma anticonstitucional. Mas para que isto possa abrir um novo caminho ao país, é necessário outro NÃO fundamental: O NÃO à “reforma” belicista que destruiu o Artigo 11, um dos pilares básicos da nossa Constituição.

Por Manlio Dinucci*

As escolhas econômicas e políticas internas, como as feitas pelo governo Renzi rejeitadas pela maioria dos italianos, estão de fato indissoluvelmente ligadas às de política externa e militares. Umas são funcionais às outras. Quando justamente se propõe aumentar a despesa social, não se pode ignorar que a Itália queime, na forma de despesas militares, 55 milhões de euros por dia (cifra fornecida pela Otan, na realidade é mais alta). Quando justamente se pede que os cidadãos tenham voz na política interna, não se pode ignorar que também não têm nenhuma voz na política externa, que continua sendo orientada para a guerra.

Enquanto estava em curso a campanha do referendo, passou em silêncio quase total o anúncio feito no início de novembro pelo almirante Backer da U.S. Navy ( a marinha dos EUA): “A estação terrestre do Muos em Niscemi, que cobre grande parte da Europa e da África, está em operação”.

Realizada pela General Dymanics – gigante estadunidense da indústria bélica, com faturamento anual de 30 bilhões de dólares  – a estação de Niscemi é uma das quatro do sistema Muos (Mobile User Objective System). As demais estão na Virgínia, no Havaí e na Austrália. Através dos satélites da Lockheed Martin – outro gigante estadunidense da indústria bélica com 45 bilhões de dólares de faturamento – o Muos interliga à rede de comando do Pentágono submarinos e navios de  guerra, caças-bombardeiros e drones, veículos militares e destacamentos terrestres em movimento, em qualquer parte do mundo em que se encontrem.

A entrada em operação da estação Muos em Niscemi potencializa a função da Itália como trampolim de lançamento das operações militares dos EUA/Otan para o Sul e o Leste, no momento em que os EUA se preparam para instalar sobre nosso território as novas bombas nucleares B61-12.

Passou sob quase total silêncio, durante a campanha do referendo, também o “plano para a defesa europeia” apresentado por Federica Mogherini: esse plano prevê o engajamento dos grupos de batalha deslocáveis em dez dias por 6 mil quilômetros desde a Europa.

O maior desses grupos, de que a Itália é a “nação guia”, efetuou, na segunda metade de novembro, o exercício militar “European Wind 2016”, na província de Udine. Participaram 1.500 soldados da Itália, Áustria, Croácia, Eslovênia e Hungria, com uma centena de meios blindados e muitos helicópteros. O grupo de batalha guiado pela Itália, do qual se certificou a plena capacidade operacional, está pronto para ser deslocado já a partir de janeiro, para “áreas de crise”, sobretudo na Europa oriental.

Para evitar equívocos com Washington, Mogherini detalhou que isso “não significa criar um exército europeu, mas ter mais cooperação para uma defesa mais eficaz em plena complementaridade com a Otan., em outras palavras, que a União Europeia quer aumentar a sua força militar permanecendo sob comando dos EUA na Otan, da qual são membros 22 dos 28 países da União. Enquanto isso, o secretário geral da Otan, Stoltenberg, agradece ao recentemente eleito presidente Trump por “ter levantado a questão da despesa com a defesa”, detalhando que “não obstante os progressos alcançados na divisão dos encargos, ainda há muito a fazer”.  Em outras palavras, os países europeus da Otan deverão endossar uma despesa militar muito maior.

Os 55 milhões de euros, que pagamos a cada dia para as despesas militares, logo aumentarão. Mas sobre isto não há referendo.

*Jornalista e geógrafo.
Publicado em Il Manifesto. Tradução de José Reinaldo Carvalho para Resistência

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