Manlio Dinucci: Trump a caminho do G-Otan de Taormina

Opinião

O presidente Trump, depois de visitar a Arábia Saudita e Israel, passa por Roma nesta quarta-feira (24), para depois se dirigir à Cúpula da Otan de Bruxelas e voltar à Itália nos dias 26 e 27 para o G7 de Taormina e a visita à base dos EUA/Otan de Sigonella.

Por Manlio Dinucci (*)

Quais são os objetivos da sua primeira viagem ao exterior? Principalmente três, explica o general McMaster, conselheiro do presidente para a segurança nacional: lançar uma “mensagem de unidade” aos muçulmanos, judeus e cristãos; construir relações com os líderes mundiais e projetar a potência norte-americana ao exterior.

A visita a Roma é a terceira etapa daquilo que está descrito como uma “peregrinação religiosa aos lugares santos das três grandes religiões”. O “peregrino” começou a viagem assinando em Riad o acordo para a venda de armas dos Estados Unidos à Arábia Saudita no valor de 110 bilhões de dólares, que se somam às já fornecidas pelo presidente Obama no valor de 115 bilhões. Armas empregadas, entre outras finalidades, na guerra da coalizão dirigida pelos sauditas, apoiada pelos EUA, que resulta em massacre de civis no Iêmen.

Na “Cúpula árabe-islâmica”, realizada dia 21 de maio em Riad, Trump chamou a Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo a um empenho renovado contra o terrorismo, ou seja, chamou os mesmos que financiaram e armaram o chamado Estado Islâmico (Isis, na sigla em inglês) e outros grupos terroristas nas operações sob comando dos EUA e Otan, na Líbia, Síria e Iraque.

Nesta “grande batalha entre o Bem e o Mal”, Trump inclui o Hezbolá e o Hamas na lista dos “criminosos bárbaros”, junto ao Isis e a Al Qaeda. Denuncia o Irã de ser responsável pela instabilidade do Oriente Médio, acusando-o de “financiar, armar e treinar terroristas e milícias que semeiam destruição e caos na região”, de desestabilizar a Síria, onde “Assad, apoiado pelo Irã, cometeu crimes indizíveis”.

Uma verdadeira e precisa declaração de guerra ao Irã, que anula de fato os acordos concluídos, para o enorme contentamento de Israel, que o presidente estadunidense visitou dias 22 e 23 para fortalecer a cooperação estratégica. E enquanto nos cárceres israelenses está em curso há 40 dias uma greve de fome de milhares de prisioneiros políticos palestinos, Trump se encontra com Mahmoud Abbas para “solicitar ao líder palestino que dê passos construtivos rumo à paz”.

Levando essa “mensagem de unidade”, Trump discute com o papa Francisco, nesta quarta-feira, em Roma, “uma série de questões de interesse mútuo”. Depois do encontro com o presidente Mattarella, que reafirmará “a ligação histórica” da Itália aos Estados Unidos, Trump participará na Cúpula da Otan em Bruxelas.

Nessa Cúpula, defenderá o plano do Pentágono para a Europa (Il Manifesto, 9 de maio), ou seja a escalada militar estadunidense na Europa e o fortalecimento da Otan em face de uma “Rússia ressurgente que procura minar a ordem internacional liderada pelo ocidente”.

Plano que Trump deve seguir, mudando sua afirmação sobre uma “Otan obsoleta” e a sua promessa eleitoral de abrir uma tratativa com Moscou: pende sobre sua cabeça a espada de Dâmocles do impeachment, sob a acusação de convivência com o inimigo.

Da Cúpula da Otan, Trump irá ao G7 formado pelos seis maiores países da Otan – Estados Unidos,  Canadá, Alemanha, Grã Bretanha, França e Itália – mais o Japão, o principal aliado dos EUA e da Otan na região Ásia/Pacífico, onde o Pentágono instala crescentes forças, inclusive nucleares, contra “uma China agressiva e uma Rússia revanchista”.

Finalmente, o presidente dos Estados Unidos  visitará a base aeronaval de Sigonela, principal base da guerra aberta e secreta dos EUA/Otan no Oriente Médio e Norte da África, apresentada como “projeção da estabilidade no Mediterrâneo”.

(*) Jornalista e geógrafo. Publicado em Il Manifesto. Tradução de José Reinaldo Carvalho para Resistência

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