Síria

Maurizio Musolino: Palmira e as contradições

30/03/2016

A libertação da cidade de Palmira representa simbolicamente um momento importante para o renascimento de um país posto em joelhos por cinco anos de guerra.

Por Maurizio Musolino, para Resistência

O exército de Damasco conseguiu, depois de dias de dura batalha, pôr em debandada o Isis (Estado Islâmico, na sigla em inglês), graças à colaboração dos ataques aéreos russos e à preciosa presença militar do Hezbolá. Palmira tem não apenas um altíssimo valor simbólico pela sua história e por sua extraordinária beleza, representa também  um importante ponto de confluência rumo ao leste, de lá se chega primeiro a Deir El Zor e depois, prosseguindo para o norte, para Raqqa, a capital, tanto quanto Mossoul (no Iraque), do chamado Estado Islâmico.

Mas tentemos analisar como foi feita entre nós a narrativa desse acontecimento. Recordam-se das manchetes em primeira página e dos noticiários das televisões quando o Isis entrou em Palmira abatendo arcos e colunas e matando os responsáveis pelo patrimônio arqueológico?

Agora, diferentemente, a reconquista de Palmira passou quase no mais absoluto silêncio, como se o Isis não fosse o monstro que é, e uma grave derrota deste não representasse um acontecimento importante para todos os amantes da paz. Quem o denuncia não são apenas os “habituais amigos da Síria”, mas também um dos grandes do jornalismo sobre o Oriente Médio, Robert Fisk,  no diário inglês, The Independent.  Fisk  sublinha como depois do massacre de Bruxelas todo o Ocidente deveria comemorar essa pesada derrota do Isis, mas ao invés disso, houve um ensurdecedor silêncio sobre a libertação de Palmira. Nem Obama, nem Cameron, nem  Hollande, nem o nosso Renzi fizeram escutar as suas vozes. Talvez porque Palmira representa a derrota da estratégia estadunidense na região, para vantagem de Putin, que foi confirmado, juntamente com o exército sírio e a milícia do Hezbolá como o verdadeiro e eficaz inimigo do Isis.

A reconquista de Palmira assinala um notável fortalecimento do papel de Bashar Assad sobretudo em meio às negociações que acompanham a frágil trégua que ainda parece estar em vigor, e em vista das próximas eleições, em abril, quando si renovará o parlamento sírio com a participação de uma parte da oposição. As eleições legislativas na Síria estão previstas para ocorrer a cada quatro anos e Bashar Assad com a decisão de realizá-las, surpreendendo muitos, quer reafirmar a legittimidade do sistema político do país. Eleições que, desde as últimas feitas há exatamente quatro anos, eliminam o controle absoluto que por décadas o partido Baath exerceu, introduzindo uma real possibilidade de votar no partido e no candidato da preferência do eleitor. Lembro-me bem, quando estive em Damasco durante as últimas eleições com uma delegação internacional liderada por Socorro Gomes, presidenta do Conselho Mundial da Paz, que a cidade estava literalmente atapetada com os panfletos dos diversos candidatos e candidatas. A este respeito, beira o ridiculo a polêmica que foi feita nas Nações Unidas quando à margem da sessão de ontem o jornalista da Al Jazeera perguntou ao embaixador saudita por que era tão crítico sobre as eleições do próximo dia 13 de abril na Síria, exigindo eleições absolutamente livres e democráticas, mas negando o mesmo no país que representa. Uma pergunta que fez o diplomata saudita ficar furioso.

Empenhado nessa campanha eleitoral está o Partido Comunista Sírio que confirma o total apoio ao atual  presidente mas ao mesmo tempo enfatiza o tema da igualdade social e das políticas a serem implementadas em favor da classe operária e dos assalariados em geral. Nestes últimos anos, um membro do secretariado nacional desse partido me explicou: “A inflação devorou os salários. Antes um dólar equivalia a 50 liras sírias, hoje a 5.000. O nosso povo é orgulhoso da resistência que nestes anos temos feito ao Isis e a tantos mercenários que vieram combater sob diversas bandeiras, e ao mesmo tempo está revoltado porque não consegue sobreviver”. Este será um dos temas centrais na campanha eleitoral do PC Sírio.

Os comunistas sírios têm a consciência de que a batalha em que a Síria está empenhada não se faz apenas com as armas, terreno no qual estão pessoalmente comprometidos ao lado do exército nacional, mas também fazendo da Síria um país da justiça social e da centralidade das políticas nacionais públicas, contra as ânsias de liberalismo e de privatização ainda em voga. O possível negócio da reconstrução poderia estar à espreita e seria absurdo que a reconstrução enriquecesse os mesmos que nestes anos apoiaram os diversos bandos terroristas.

Maurizio Musolino é jornalista italiano especializado em Oriente Médio; tradução de José Reinaldo Carvalho, para Resistência.

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