“Nossa única arma será a palavra”, dizem as Farc ao abandonar as armas

Colômbia

Do rincão conhecido como Llanos Orientales, banhado pelo Rio Orinoco, ecoou o grito final de paz das Farc nesta terça-feira (27). A data entra para a história como o dia que a guerrilha abandonou completamente as armas e partiu para a luta política civil e democrática. “O abandono das armas significa o triunfo da razão de nossa luta. De hoje em diante nossa única arma será a palavra”, diz o comunicado oficial das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo.

Por Mariana Serafini

Em três etapas as Farc entregaram todas as 7.132 armas pessoais para a ONU e encerraram o processo de abandono da luta armada definitivamente. Este era um dos pontos altos do Acordo de Paz que começou a ser implementado este ano pela guerrilha e pelo governo colombiano. “Não falhamos com a Colômbia. Hoje deixamos as armas!”, anunciou o comandante em chefe das Farc, Timoleón Jiménez.

Durante o ato político realizado em meio à floresta colombiana, no departamento de Meta, localizado na região dos Llanos Orientales, o presidente Juan Manuel Santos, Timochenko e o chefe da missão da ONU, Jean Arnoult, selaram o cumprimento do compromisso da guerrilha com o povo da Colômbia.

“Neste dia não termina a existência das Farc, na verdade, colocamos fim à nossa luta armada de 53 anos porque seguiremos existindo como um movimento legal e democrático por vias legais, sem armas e pacificamente”, garantiu Timochenko.

As igrejas Católica e Ortodoxa se envolveram no processo e participaram do ato bastante simbólico de fechar com cadeados os containers onde as armas foram armazenadas. Em transmissão ao vivo para todo o mundo e com a presença de observadores internacionais, os representantes da ONU das três regiões designadas para o recebimento do armamento deram por encerrado o processo.

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O próximo passo é a destruição do armamento que será utilizado para construir três monumentos à paz em países diferentes. O presidente Juan Manuel Santos presenteou Timochenko com a obra de um artista colombiano que “transformou” uma espingarda em ferramenta de trabalho no campo, principal símbolo do comprometimento das Farc com a agricultura camponesa.

Boas-vindas à vida civil

Ao longo destes 53 anos de conflito, muitos dos guerrilheiros já nasceram num país em guerra, e a maioria deles não teve outra opção para defender a própria vida a não ser integrar as fileiras do Exército do Povo. Uma das questões a ser resolvida, neste caso, é a documentação. Durante o ato, um grupo de combatentes recebeu, pela primeira vez, uma cédula de identidade e se tornou, finalmente, um cidadão colombiano.

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Entre estas pessoas estava um casal com uma filha recém nascida. A pequena foi recebida de braços abertos pelo comandante em chefe da ex-guerrilha porque simboliza, de certa forma, o início de um novo ciclo. Agora sem guerra. Este processo de transição remete, ao mesmo tempo, a esperança e despedida. Esperança de uma vida com perspectivas completamente novas e de uma sociedade pacificada e despedida de uma entrega completa à luta por mundo mais justo. Afinal, ao decidir pela luta armada, cada um dos camponeses integrantes das Farc passava a, literalmente, “carregar uma casa nas costas” e dedicar a vida a um objetivo coletivo.

Agora a luta das Farc será pelas vias eleitorais. A organização se consolida como uma força política e terá direito a concorrer a cargos eletivos do Executivo e do Legislativo. Os guerrilheiros, depois de completamente integrados à vida civil poderão realizar o sonho de estudar, construir uma carreira profissional e contribuir com as comunidades que os acolheram. Outros voltarão a se dedicar ao que melhor sabem fazer: a agricultura familiar e camponesa.

Agora o Estado precisa cumprir sua parte

Timoleón Jimenez usou seu discurso para celebrar o começo de uma nova etapa, mas foi incisivo ao exigir que o Acordo de Paz seja cumprido pelas duas partes. Segundo ele, as Farc não falharam com a Colômbia e fizeram o que foi prometido, no entanto, o mesmo não aconteceu do outro lado. O comandante denunciou que os crimes seletivos e perseguição a dirigentes sociais continuam a acontecer na Colômbia e exigiu medidas rápidas e drásticas do Estado para proteger a vida das pessoas.

Com a implementação do Acordo de Paz e desmobilização das Farc, muitas áreas antes protegidas pela guerrilha ficaram vulneráveis frente ao crime organizado e ao para-militarismo. Cabe ao Estado proteger e garantir o direito de expressão e livre pensamento de dirigentes sociais e representantes da sociedade civil organizada.

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O fim do conflito representa também o fortalecimento dos movimentos sociais que agora terão mais liberdade e garantias para avançar na luta por direitos e ocupar as ruas. Não à toa os sindicatos que representam os professores da Colômbia fizeram, recentemente, uma greve de mais de 30 dias. O fim da guerra traz a sensação de liberdade para avançar nas conquistas sociais.
Por isso, segundo Timoleón, é fundamental que o governo cumpra com a sua parte do acordo e garanta segurança para o livre exercício da democracia no país. “Basta de perseguição aos opositores políticos e ao pensamento crítico”, denunciou.

Um dos pontos do Acordo destacados pelo comandante foi o que se refere à reforma agrária. Ele pediu celeridade no processo para dar condições aos camponeses que foram expulsos de suas terras pelo crime organizado possam voltar a trabalhar. “Nos Diálogos de Paz ficou definido que a imensa dívida econômica, política e cultural que o Estado tem com os camponeses será saldada. Não significa que o agronegócio será prejudicado, só não deve impedir o desenvolvimento camponês”, pediu Timochenko.

Sem armas, a guerrilha encerra uma etapa de mais de 50 anos e abre um novo capítulo da história da América Latina onde a principal arma será a força da palavra para lutar por justiça, igualdade e dias melhores.

Fonte: Portal Vermelho

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