Pecado original: nação rica que ama a liberdade

Venezuela

Luis Britto García é um prestigioso intelectual venezuelano, advogado e doutor em Direito, narrador, ensaísta, dramaturgo, designer e autor de mais de 60 livros / Foto: AVN

O prestigioso intelectual venezuelano Luis Britto García aderiu ao debate de hoje para trazer claridade, mais uma vez, sobre temas fulcrais do seu país.

Por Alina Perera Robbio

“Não alongue o tema. Nós estamos parados sobre a maior reserva de petróleo do mundo, e por aí passa todo o demais…”. Lacônico, vertical, um jovem venezuelano me explicou dessa forma por que seu país é vórtice de múltiplos conflitos e alvo permanente dos ataques do imperialismo.

A nação bolivariana não deixa de despertar interesse, emoções e critérios, sobretudo depois de 30 de julho deste ano, dia em que mais de oito milhões de cidadãos disseram sim à Assembleia Nacional Constituinte (ANC). Foi uma resposta não esperada por muitos, que deixou de boca aberta e cheios de ira os inimigos da Revolução iniciada pelo comandante Hugo Chávez.

Acerca da hora atual do país irmão e seu possível futuro, as análises daqueles que compartilham sua sorte com esta querida terra não faltam. Aqui há um pensamento profundo a cargo de mulheres e homens de prestígio mundial. Poucos duvidariam, por exemplo, que uma dissertação do prestigioso intelectual venezuelano Luis Britto García (Caracas, 1940) é digna de ser atendida.

Começando agosto, o advogado e doutor em Direito, narrador, ensaísta, dramaturgo, designer e autor de mais de 60 títulos compartilhou opiniões em um programa especial da Venezolana de Televisão. Sobre a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), Britto expressou que tal entidade tem o valor de confirmação do caráter perdurável do bolivarianismo.

“Tinha-se dito muito: ‘esse é um movimento de clientelismo (…) porque como há dádivas, então as pessoas o apoiam’. Ou então: ‘é um movimento carismático, porque vem de um líder carismático’. O líder do movimento sumiu há mais de quatro anos. As pessoas continuam firmes, com os mesmos ideais do processo. Caiu o petróleo (seus preços) de uma forma tremenda, há escassez no país e, contudo, as pessoas foram votar, apesar de que havia cerco, de que havia terrorismo e surgiram esses oito milhões (de pessoas) que disseram sim à ANC”.

No dizer do prestigioso intelectual o processo bolivariano vai mais além das oscilações breves na história: é algo “perdurável e confirmado, ao ponto de que já um dos líderes da oposição disse que ia entrar nas eleições regionais e um porta-voz da grande potência do Norte disse que eles não iam reconhecer um governo paralelo. Então há um elemento de legitimação”.

O que esperar desta ANC, perguntaram a Britto no programa especial. Sua primeira ideia foi falar de um “conjunto de normas magníficas na Constituinte”.

Em seu raciocínio, “pela segunda ou terceira ocasião o povo permitiu sair de um atoleiro que parecia não ter saída. Quando Chávez foi preso, o povo o libertou. Quando se produziu a sabotagem petroleira que paralisou a produção, o povo resistiu (…). Agora, que estava em auge essa crise causada pelo arroubo de soberba da direita, a qual pensava que já tinha o poder, esses oito milhões e tanto de votos voltaram a legitimar, a mostrar o consenso que tem o projeto bolivariano”.

Quanto aos desafios prementes da sociedade venezuelana, Britto afirmou que “boa parte das medidas que devem ser tomadas na Venezuela podem ser feitas com as normas que temos atualmente. Em primeiro lugar, parar o contrabando de extração (de bens), no qual, segundo disse o presidente Maduro, foge 40% do que a Venezuela produz ou importa. Em segundo lugar, que o Estado assuma a importação e distribuição de bens básicos, porque não é possível que sejam investidos US$ 60 bilhões — quantia também dada pelo presidente Maduro — e que acabem se escapando em ‘empresas de mala’ ou em importações fantasmas”.

O escritor tem uma convicção sobre seu país: “Produzimos boa parte do que consumimos. Produzimos 88% dos alimentos que consumimos, e muitas pessoas desconhecem isso. O obstáculo assenta na distribuição. O Estado triplicou a quantidade de dólares preferenciais dados desde o ano 2004 para importar bens básicos e para importar medicamentos”.

Partindo dessas realidades, Britto fala em “deixar de dar os dólares preferenciais às empresas que não importam ou que importam os bens e os escondem. É preciso evitar que continue o contrabando de extração e aplicar medidas sem misericórdia a esses que impedem a distribuição e criam a escassez programada, e se isso se faz com medidas constitucionais urgentes, melhor”.

A pátria e as realidades do mundo

Por um lado os Estados Unidos expressaram sua vontade de não reconhecer governos paralelos (diante da evidente legitimidade que os resultados de 30 de julho deram ao processo bolivariano); e por outro, dias depois, pedem ao presidente constitucional Nicolás Maduro que devolva os direitos aos cidadãos. “Vão e vêm – disse Luis Britto – ao que parece não há uma posição inteiramente firme, relativamente ao tema venezuelano”.

Como diziam em uma época, segundo lembrou o proeminente analista, Chávez os deixou sem saber o quê fazer: “Apesar de que o comandante partiu há algum tempo, deixou-os doidos (aos imperialistas). Dizem que não vão reconhecer um governo paralelo e, imediatamente depois, declaram que Maduro tem que se demitir, tem que sair, que eles são os que determinam quem nos deve governar a nós os venezuelanos; quer dizer, é uma atitude errática que implica que não sabem a determinação que devem tomar”.

Se bem é certo que o pensador dedicou algumas reflexões aos perigos de uma invasão externa ao seu país, o que mais lhe preocupa é uma ameaça, uma “coisa muito grave que é a infiltração paramilitar contra nosso território e as ações do terrorismo. Isso temos que resolvê-lo nós”.

No plano interno, a Venezuela, disse Luis Britto, “tem o direito e o dever de se defender. Tem que ser instituída uma nova normativa que habilite o Estado para lidar contra este novo tipo de guerra sanguinária que é, ao mesmo tempo, econômica, política, cultural, da mídia, estratégica. Então a Constituinte tem que considerar esse problema de segurança nacional e de paz para permitir a sobrevivência do Estado venezuelano, da República e dos venezuelanos”.

O advogado lembrou que “os Estados Unidos gastam em seu orçamento militar mais de metade de todas as despesas em armas do mundo. Essa é uma quantia impressionante; porém: para que serve essa despesa em armas se na hora da guerra têm que lutar com intermediários? Os Estados Unidos, realmente, nunca venceram nenhuma guerra”.

A partir do momento em que o mundo começou a viver um equilíbrio sinistro, a partir do momento em que as grandes potências têm armas atômicas, “todos os golpes, segundo diz Britto, dão-se por debaixo da mesa”. Quer dizer, “não, eu não estou declarando guerra, mas estou fazendo sabotagem às escondidas, enfraquecendo tua posição. Ainda, o povo estadunidense não quer ir à guerra. Então, enviam os chicanos, os hispânicos, mercenários. Ali há agências de mercenários”.

“(…) A decadência do império romano começou com isso, quando já não travavam suas guerras com cidadãos romanos mas sim com mercenários, e chegou um momento em que os mercenários disseram: epa, e por que vamos estar lutando e os mercenários tomaram o império, revoltaram-se e conquistaram Roma…”.

Muitos planos elaborou o imperialismo do Norte para destruir a Revolução Bolivariana e dominar a Venezuela. Luis Britto mencionou, entre tantas outras guerras, a de ter colocado a essa nação sul-americana o rótulo de “país de risco”, para que muitos pensem duas vezes antes de fazer planos de intercambio econômico com a nação de Bolívar: “O próprio Eduardo Galeano perguntava como é possível que um país com as maiores reservas de petróleo no mundo seja um país de risco enquanto outra nação que leva mais de meio século mergulhada em uma guerra civil não é…”.

A lista de agressões que criam cenários convulsos, que parecem um absurdo, que apostam em encorajar uma cotação do dólar que não é real, persegue, como denunciou o destacado intelectual, um único propósito: liquidar o país em sua hora atual. Contudo – e a ideia a acrescenta a autora deste artigo – muitas vezes o pragmatismo obvia o fator humano; e pelo que se vê, muitos continuam teimando em não respeitar a vontade de mais de oito milhões de venezuelanos que estão querendo resolver seus problemas através do pacífico, inteligente e muito humano caminho da Constituinte.

Fonte: Granma

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