Opinião

Putin e as chaves da porta levantina

02/12/2017
Da esquerda à direita: Rohani (Irã), Putin (Rússia) e Erdogan (Turquia)

O presidente Vladimir Putin parece recolher os frutos do apoio ao antiterrorismo na Síria, com uma chave nas mãos para a solução do conflito nesse país, enquanto envolve na operação potências regionais, como a Turquia e o Irã.

Com a máxima de aglutinar na solução do conflito sírio quem esteja de acordo para somar esforços, independentemente das diversas interpretações sobre como fazê-lo, a Rússia parece ter vindo para ficar no Levante (*).

Moscou traz uma carta de apresentação, antes de tudo legítima, pois foi chamada para combater formações terroristas, em vez de autoproclamar-se lutador contra o extremismo, como fizeram os Estados Unidos, ainda que agora poucos creiam nesse argumento.

A reunião de Putin com o presidente sírio, Bashar Al Assad, em Sochi, foi como um marco no início de outra etapa do conflito no país levantino, onde a possibilidade de um período pós-conflito aparece cada vez com maior clareza.

Um bom começo seria o Congresso de Diálogo Nacional, ao qual convoca Al Assad em Sochi, uma cidade convertida nas últimas semanas no centro de intercâmbio destinado a decidir muito do que está pendente no tema sírio, inclusive o fim imediato dos combates.

Putin conversou ali duas vezes com seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, que encontra cada vez mais diferenças com os Estados Unidos, tanto por suas novas relações com Moscou, que incluem a compra de armamentos e a construção de um gasoduto, como pelo tema sírio.

Erdogan parece decidido a fazer uma viragem em sua estratégia de contenção do tema curdo para, em vez de empregar grupos armados com a finalidade de derrocar Al Assad, envolver-se diretamente na solução do conflito e garantir a integridade territorial síria.

A Rússia, com a cooperação da Turquia e do Irã, garante uma luta a mais eficaz possível contra um inimigo comum: o terrorismo, que mostrou com suas ações na Europa como pode sair do controle de seus próprios patrocinadores.

O encontro de Putin e Al Assad desenha uma intenção de Moscou de defender a legitimidade do mandatário sírio e o papel que deve jogar em um futuro processo político na nação árabe, opinam especialistas.

Um rápido início de um processo negociador, que partiria de Sochi, com plena ausência dos Estados Unidos, poderia deixar Washington com uma carência de argumentos críveis para manter suas tropas na Síria.

Nesse sentido, os analistas recordam as denúncias feitas pelo Estado Maior russo sobre as manobras de Washington para colaborar com grupos extremistas e inclusive protegê-los dos golpes da aviação de combate desse país, em vez de atacá-los como anuncia.

A Rússia parece contar, se não com o apoio, ao menos com a abstenção de outra potência regional como a Arábia Saudita que pouco a pouco se abre a uma relação com Moscou com a qual compartilha a cúpula petrolífera mundial e pode desenvolver negócios multimilionários.

A abstenção saudita estaria relacionada com sua posição a respeito dos grupos armados opostos ao governo de Al Assad nesta etapa claramente final do conflito sírio.

Um sinal nesse sentido poderia ser o consenso alcançado entre as forças da oposição síria que em uma recente reunião em Riad finalmente conciliaram posições, incluindo a apresentação de uma lista de participantes nas conversações sobre a Síria em Genebra.

Moscou contará com a presença do enviado da ONU para a Síria, Steffan de Mistura, para debater sobre um processo em Genebra que ficou atrasado comparativamente com as sete rodadas do diálogo inter-sírio realizadas desde janeiro último em Astaná.

A chave para abrir portas no complicado cofre levantino está, evidentemente, nas mãos da Rússia, algo que os Estados e os países da Europa resistem a reconhecer.

Antonio Rondón García, chefe da sucursal da Prensa Latina em Moscou. Tradução da redação do Resistência.

(*) Levante é um termo geográfico que designa uma grande área do Oriente Médio, limitada a oeste pelo Mediterrâneo e a leste pelo Deserto da Arábia setentrional e pela Mesopotâmia. De uma forma geral, a região se resume à Síria, à Jordânia, a Israel, à Palestina, ao Líbano e ao Chipre. (Nota da Redação).

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