Opinião

Trump anuncia oficialmente transferência da embaixada para Jerusalém e abala relação com mundo árabe e aliados

06/12/2017

Como já era esperado, Donald Trump acaba de anunciar, na tarde desta quarta-feira (6), o reconhecimento oficial dos EUA de Jerusalém como capital de Israel e determinou a transferência da embaixada estadunidense. Ao mesmo tempo em que a extrema-direita e os sionistas vão ao êxtase, a medida causa grandes fissuras entre Estados Unidos e os países árabes aliados, ainda difíceis de dimensionar em termos de consequências concretas, mas preocupantes para o imperialismo americano. Todos os partidos políticos palestinos decretaram, a partir desta quarta-feira, “três dias de fúria”. 

Por Wevergton Brito Lima* 

Em 30 de julho de 1980 Israel declarou Jerusalém, através de seu parlamento, como capital do Estado judeu. Em agosto do mesmo ano a resolução 478 do Conselho de Segurança da ONU considerou que tal lei israelense estava em clara oposição à resolução 476, que considera a declaração unilateral de Jerusalém como capital de Israel uma violação do direito internacional e constitui um sério obstáculo à conquista da paz.  

Em diversas oportunidades a ONU reiterou que todas as medidas que alterarem o caráter geográfico, demográfico, histórico e o Estatuto de Jerusalém são nulas e sem efeito, em conformidade com as resoluções do Conselho de Segurança.

Além de violar todas estas resoluções internacionais, o anúncio de Trump fere igualmente a IV Convenção de Genebra, obrigatória para todos os membros da comunidade internacional, que proíbe a anexação de territórios ocupados pela força militar, como é o caso de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Em decorrência disso, até a decisão desta quarta-feira, nenhum país reconhecia Jerusalém como capital de Israel, sendo que todas as instalações diplomáticas estrangeiras estão em Tel Aviv.  

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, está exultante. Expressou, logo após o anúncio de Trump, sua “profunda gratidão” ao presidente americano e exortou “todos os países do mundo” a reconhecerem Jerusalém como capital de Israel. Em relação a este último desejo, no entanto, o líder sionista terá que esperar muito tempo, a julgar pelas primeiras reações internacionais. 

Reação dos aliados 

Os países árabes aliados dos EUA, unidos com o imperialismo por complexos laços financeiros, políticos e militares, têm, no entanto, que responder também a sua base de massa, formada por milhões de muçulmanos historicamente solidários com o sofrimento de seus irmãos árabes palestinos e que, além disso, por motivos religiosos, enxergam Jerusalém como uma cidade sagrada de sua fé.

O site Opera Mundi informa que tanto o rei Salman, da Arábia Saudita, quanto Abdel Fatah Al-Sisi, presidente do Egito, advertiram o presidente dos EUA a não avançar com sua tentativa de transferir a embaixada norte-americana para Jerusalém. Salmam afirmou que a medida poderia causar “a ira dos muçulmanos em todo o mundo”.

Um reunião de emergência da Liga Árabe já está convocada para este próximo sábado.

Ainda segundo Opera Mundi, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, também convocou os 57 países-membros da Organização de Cooperação Islâmica para uma reunião já em dezembro que pretende debater as medidas anunciadas por Trump. “Segundo o porta-voz de Erdogan, Ibrahim Kalin, o presidente já conseguiu a confirmação de parceiros da região e conversou com lideranças do Irã, Arábia Saudita, Catar, Tunísia, Paquistão, Indonésia e Malásia, para uma possível ofensiva contra a decisão do mandatário norte-americano.”

É importante não esquecer que a Turquia é membro da Otan, e Erdogan ameaçou romper relações com Israel caso Jerusalém fosse reconhecida como capital pelos EUA. A declaração de Erdogan, ainda na terça-feira (5), antes do anúncio oficial de Trump, advertia: “Vamos levar essa luta até o fim, com determinação. Isso se trata de uma linha vermelha, que não pode ser ultrapassada, para os muçulmanos”, declarou. 

Reação da União Europeia

Após o anúncio de Trump, a chefe de diplomacia da União Europeia (EU), Federica Mogherini, declarou que “qualquer ação que possa prejudicar” os esforços para a criação de dois Estados para israelenses e palestinos “deve ser absolutamente evitada”. “Devemos encontrar um caminho por meio do diálogo para resolver a questão de Jerusalém como futura capital dos dois Estados, de forma que possamos fazer cumprir as pretensões de ambas as partes”, afirmou Mogherini. 

Papa Francisco

Jerusalém também é uma cidade sagrada para os cristãos. O papa Francisco deixou muito clara sua oposição ao anúncio de Trump: “O meu pensamento vai, agora, para Jerusalém. Não posso deixar de expressar minha profunda preocupação pela situação que foi criada nos últimos dias e, ao mesmo tempo, fazer um sincero apelo para que todos se empenhem em respeitar o ‘status quo’ da cidade, em conformidade com as resoluções das Nações Unidas”, afirmou o líder católico, no Vaticano.

Coplac: “Decisão Trágica”

No Brasil a comunidade árabe palestina já se movimenta. Para o Secretário-Geral da Confederação Palestina Latino-Americana e do Caribe (Coplac), Emir Mourad, “Trump desrespeita e fere todas as resoluções da comunidade internacional, as resoluções da ONU e a convenção de Genebra. Esta decisão joga por terra toda e qualquer chance de negociações de paz entre palestinos e israelenses. Evidentemente que a comunidade palestina no Brasil e na América Latina está se mobilizando, para protestar contra esta decisão trágica, esta decisão desrespeitosa, não somente ao povo palestino, mas a toda a comunidade internacional”.

Apesar de tudo isso, Donald Trump, declarou que “com esse anúncio (do reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel), eu reafirmo o longo comprometimento da minha administração com a paz”, o que inevitavelmente lembra o primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, que em 1938 proclamou, depois de assinar o Pacto de Munique, entregando a Tchecoslováquia à Alemanha, que se houvesse mais homens como Hitler no mundo, a paz estaria garantida na Europa.

* Jornalista, membro da Comissão de Política e Relações Internacionais do PCdoB

 

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