Opinião

Augusto Buonicore: 80 anos da Guerra Civil Espanhola

19/07/2016
Dolores Ibarruri, La Pasionaria

A guerra civil espanhola foi um dos acontecimentos mais importantes do século 20. Ela incendiou a imaginação de toda uma geração. Um número enorme de artistas e intelectuais a teve como tema de suas obras.

Por  Augusto Buonicore*, no Portal Grabois

A luta heroica do povo espanhol tem emocionado profundamente todo o mundo. Depois da revolução socialista de outubro, em 1917, este é o acontecimento mais importante da luta de libertação das massas populares nos países capitalistas” (Palmiro Togliatti, novembro de 1936).

Diante daquele conflito não cabia neutralidade. Muitos já pressentiam que ali se decidia o destino da Europa e do mundo. Contudo, os republicanos acabaram sendo derrotados devido à intervenção militar das potências nazi-fascistas e à traição das chamadas democracias ocidentais, que cobriram sua posição capitulacionista com o manto roto da política de não intervenção.

Os antecedentes

Em abril de 1931, durante a grande crise do capitalismo, o governo monárquico da Espanha, sob a regência do Afonso XIII, realizou eleições municipais. Nelas ocorreu uma vitória esmagadora dos candidatos republicanos de diversas colorações. Diante de tal derrota, coube apenas uma saída ao rei desmoralizado: a renúncia. Então, proclamou-se a República.

Nas eleições gerais realizadas em junho daquele mesmo ano confirmou-se a força dos partidos republicanos, inclusive os de esquerda. Num parlamento de 470 lugares, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) conquistou 116, tornando-se um dos maiores partidos. Ele ocuparia três importantes ministérios: o da Justiça com Fernando de los Rios; o das Finanças com Indalécio Pietro; e o do Trabalho com Largo Caballero. Os demais ministros eram republicanos radicais burgueses.

Este governo frentista tinha um verniz reformista e era fortemente anticlerical, pois a igreja católica na Espanha sempre foi o principal sustentáculo da monarquia e do conservadorismo. A República extinguiu o pagamento de salários aos padres, que era feito pelo Estado; instituiu o casamento civil e o divórcio; proibiu o ensino religioso nas escolas, criou limites à apropriação de terras pela igreja e iniciou um processo de reforma agrária. Tais atitudes criaram um verdadeiro precipício entre autoridades civis e eclesiais. Disso se aproveitaram amplamente os setores reacionários, jogando a massa católica, especialmente a do interior, contra o governo republicano.

Na mesma época implantou-se um avançado programa de reformas sociais e política. Foram aumentados os salários e congelaram-se os aluguéis. Estabeleceram-se a jornada de 8 horas diárias de trabalho, férias remuneradas, licença-maternidade, aposentadorias etc. Instituiu-se o voto feminino.

A Constituição, aprovada em dezembro de 1931, afirmava que a Espanha era uma “República dos Trabalhadores”. Niceto Alcalá Zamora, um republicano radical burguês e não socialista, foi eleito presidente pelo parlamento e indicou o primeiro-ministro. A este, por sua vez, coube indicar o restante do ministério. Contudo, a lei permitia que diante de uma crise entre Legislativo e Executivo, o presidente poderia dissolver a Câmara dos Deputados (as Cortes) e convocar novas eleições parlamentares.

O governo de Alcalá Zamora sofreria uma dura oposição da direita dos monárquico-fascistas e da extrema-esquerda, especialmente dos comunistas e anarquistas. A III Internacional (comunista) vivia naquele período uma das suas fases mais esquerdistas e sectárias. A socialdemocracia era denominada de social-fascismo e com ela não poderia haver qualquer tipo de aliança.

Rebeliões anarquistas ocorreram em várias regiões. A resposta do governo foi desencadear uma violenta repressão causando inúmeras mortes, inclusive por fuzilamento. O presidente e seus ministros perderam o controle da situação. Atitudes que os isolaram ainda mais dos trabalhadores, inclusive daqueles sob influência do partido socialista.

Enquanto isso, a direita se organizava tendo como referência o fascismo italiano e o nazismo alemão. Em fevereiro de 1933 formou-se a Confederação Espanhola das Direitas Autônomas (CEDA), liderada por José Maria Gil Robles. Um ano depois, pequenos agrupamentos direitistas criaram a Falange, comandada por José Antonio Primo de Rivera. Grandes confrontos sociais e políticos já se anunciavam no horizonte espanhol.

A hora da direita 

Desprestigiado, em novembro de 1933,o presidente dissolveu o parlamento e convocou novas eleições. Desta vez a direita obteve a vitória, ainda que apertada. Contudo, a legislação eleitoral deu-lhe maioria folgada na assembleia nacional. A CEDA conseguiu 115 cadeiras e o PSOE apenas com 58. Os republicanos burgueses ficaram com 140. O dirigente do Partido Radical – radical somente no nome, pois era um partido burguês eclético – Alejandro Lerroux foi indicado primeiro-ministro, com o apoio da CEDA no parlamento. A República dava uma perigosa guinada à direita.

No mês seguinte, a CNT anarquista realizou uma rebelião que começou em Aragão e se espalhou por outras províncias. Houve 75 mortos e centenas de presos. O movimento não contou com o apoio dos socialistas e dos comunistas, que consideraram aquilo uma aventura. Ainda não era hora de uma insurreição daquela natureza.

Em outubro de 1934 políticos da CEDA entraram no governo ocupando três importantes ministérios: o da Justiça, o do Trabalho e o da Agricultura. Os trabalhadores passaram a temer que ocorresse na Espanha a mesma coisa que na Itália e Alemanha – onde os fascistas começaram assumindo algumas pastas no governo antes de dominá-lo completamente e impor a sua ditadura sanguinária. O perigo parecia-lhe bem real.

A resposta da esquerda veio na forma de greves e rebeliões operárias em várias cidades. Desta vez elas contavam com o apoio irrestrito de anarquistas, comunistas e dos socialistas de esquerda. Em Barcelona, o republicano Lluís Companys i Jover proclamou a autonomia da Catalunha. O exército espanhol bombardeou a sede do governo regional que teve de se render. A situação se tornou mais séria nas Astúrias. Ali uma greve geral transformou-se numa insurreição. Formaram-se colunas que contavam com 20 mil combatentes, na sua grande maioria compostas de mineiros. Eles resistiriam de armas nas mãos por duas semanas.

O governo central decretou Estado de Guerra e contra os operários lançou os generais Francisco Franco e Manuel Goded, que utilizaram tropas da Legião Estrangeira e os “mouros”, vindos das colônias espanholas no norte da África. Durante o conflito armado mais de mil insurretos foram mortos – grande parte executada –e 30 mil presos. Ironicamente, Franco e Goded foram saudados pelo governo e a burguesia como salvadores da República espanhola.

A repressão que seguiu estendeu-se aos republicanos liberais, e até o ex-primeiro-ministro Manuel Azaña foi preso. A CEDA teve aumentado o número de ministros, passando a ter cinco pastas e se tornando a principal força política no governo Lerroux. Confiantes, os grupos de extrema-direita passaram a pedir a execução dos líderes da esquerda envolvidos no levante nas Astúrias. Mesmo setores que até então apoiavam o governo começaram a temer por essa radicalização.

Nesse ínterim o partido radical de Lerroux se envolveu num clamoroso escândalo de corrupção. A direita, pressentindo que chegara a sua vez, passou a exigir a indicação de Gil Robles para primeiro-ministro. Diante de crise política e recusando a pressão da Ceda e da Falange, o presidente Alcalá Zamora indicou interinamente o nome de Manuel Portel Valadares, dissolveu o parlamento e convocou novas eleições.

Naquele momento os comunistas haviam rompido com o esquerdismo e, desde 1934, começavam a defender a constituição de frentes populares de caráter antifascista. A consolidação desta guinada ocorreu no VII Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1935.

Dentro desse esforço de unidade da esquerda, em grande parte levado a cabo pelos comunistas, foram unificadas as organizações juvenis do PSOE e do PCE que juntas formaram a Juventude Socialista Unificada (JSU). A central sindical dirigida pelos comunistas incorporou-se à UGT, então hegemonizada pelos socialistas.

Em 23 de julho de 1936, os comunistas e socialistas catalães fundiram-se no Partido Socialista Unificado da Catalunha (PSUC), que durante a guerra civil chegou a ter 60 mil membros. Os comunistas chegaram mesmo a defender a unificação do PCE e do PSOE, mas a direção socialista – especialmente a ala de Caballero – rejeitou a proposta. Temia que os comunistas, que vinham conhecendo um rápido crescimento após a formação da Frente Popular, pudessem se tornar hegemônicos na nova organização unificada.

Coube ainda ao Partido Comunista o papel de principal articulador da Frente Popular (FP). Em janeiro de 1935 foi aprovado o Manifesto-Programa daquela organização política que agregava a Esquerda Republicana, o PCE, o PSOE, o Partido Operário Unificado Marxista (POUM), União Republicana e o Partido Sindicalista. O programa não era socialista e sim democrático-popular. Um dos seus primeiros tópicos era a anistia a todos os presos políticos. Esta proposta garantiu o apoio decisivo da CNT-FAI anarquista, que já considerava o fascismo o inimigo principal a ser derrotado. Assim, pela primeira vez, os anarquistas não levantaram às ruas a sua tradicional palavra de ordem: não votem! Esta era uma forma indireta de dizer: podem votar na Frente Popular!

Os partidos de direita organizaram-se na Frente Nacional (FN). A eleição foi muito polarizada e o país praticamente se dividiu ao meio. A Frente Popular alcançou 4.654.116 votos e a FN 4.503.524. Contudo, o mecanismo de composição do parlamento que na eleição anterior beneficiara a direita, agora jogava a favor da esquerda republicana. Esta ficou com 286 deputados contra 132 da direita e 42 do Centro.

Assim ficaram distribuídas as cadeiras no parlamento entre os partidos da Frente Popular: Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), com 90 deputados; a Esquerda Republicana (ER) de Manuel Azaña, com 84; a União Republicana de Martinez Barrios, 37; a Esquerda da Catalunha (dirigida por Companys), 38; o Partido Comunista Espanhol, 16; o POUM, 1; e o Partido Sindicalista, 1. Como é possível ver os comunistas eram ainda uma força eleitoral pequena diante dos socialistas e da esquerda republicana.

O governo da Frente Popular e o início da Guerra Civil

146835669797704Sem esperar pela decisão do novo governo, o povo invadiu os cárceres e libertou os presos políticos. Greves eclodiram em várias categorias e regiões. No campo, os camponeses sem-terra passavam a ocupar as grandes propriedades rurais. Igrejas, acusadas de serem centros de conspiração monárquico-fascista, foram atacadas e incendiadas. Estabeleceu-se a autonomia – dentro da República Espanhola – da Catalunha e do País Basco.

Alcalá Zamora manteve-se na presidência e Manuel Azaña foi indicado primeiro-ministro. Do governo não participava o PCE, embora o apoiasse. Numa posição mais crítica se colocava a ala esquerda do PSOE, dirigida por Largo Caballero. A disputa no interior do partido socialista entre Caballero e Prieto imobilizava-o e criava uma instabilidade do governo frentista num momento político extremamente delicado. As greves se ampliavam e ocorriam constantes choques entre socialistas e anarquistas. A base da Frente Popular estava abalada. Caminhava-se rapidamente para uma grave ruptura. Algo que preocupava bastante os comunistas, pois sabiam que somente a unidade operária e popular poderia barrar o fascismo.

O governo, mesmo ciente da pressão que alguns generais haviam feito para que não se reconhecesse o resultado da eleição, não os puniu severamente. Apenas os afastou para regiões distantes. E a conspiração nos quartéis continuou a todo vapor, apoiando-se nos grupos de direita e na igreja católica. Vários generais e líderes oposicionistas conversavam secretamente com os governos fascistas da Itália, Alemanha e Portugal.

Entre fevereiro e julho de 1936 ocorreram 269 assassinatos políticos. Por trás de muitos deles estavam as falanges fascistas. Elas também atacavam os operários grevistas e estes, por sua vez, montavam grupos de autodefesa. Este clima de insegurança pública beneficiava amplamente a direita que responsabilizava o governo por tudo o que acontecia. O discurso em defesa da ordem ameaçada ganhava corações e mentes das camadas médias, especialmente católicas. Ia se criando uma base social de apoio para a contrarrevolução.

Em 12 de julho um tenente da guarda de assalto – ligado à esquerda socialista – foi morto por falangistas. No dia seguinte, um comando da corporação à qual pertencia o militar assassinado sequestrou e executou o líder da oposição direitista Calvo Sotelo. Este atentado seria o álibi utilizado para a deflagração da rebelião militar contra o governo republicano.

Alguns dias depois– em 18 de julho –, a colônia espanhola do norte da África caía em poder dos generais golpistas. Franco viajou ao Marrocos para assumir pessoalmente o comando das operações. Os militares também se sublevaram em Málaga e Sevilha. Quase toda a alta oficialidade estava envolvida no golpe. Tudo indicava que a queda do governo seria uma questão de horas ou de poucos dias.

O governo de Madri num primeiro momento recusou-se a dar importância às informações do levante contrarrevolucionário. Mesmo quando elas começaram a ser confirmadas, demorou a tomar medidas defensivas e permitiu que a insurreição se espalhasse para outras províncias. Por fim, não aceitou facilmente que a população fosse armada visando a resistir aos generais sediciosos. Vacilações que custariam muito caro à República naqueles momentos decisivos.

Diante da greve geral convocada pelos operários e o início de formação de batalhões populares de autodefesa, o primeiro-ministro Casares Quiroga demitiu-se do cargo. O presidente Azaña – mantendo a linha da menor resistência – ainda apostou numa saída negociada com os militares golpistas, através do novo primeiro-ministro Martinez Barrios.

A notícia pareceu às massas como uma traição. As manifestações exigindo o armamento geral do povo se multiplicavam nas principais cidades espanholas. Pressionado pelos acontecimentos, Azaña acabou concordando com a distribuição de armas e a formação de milícias populares, tendo por base os sindicatos e os partidos de esquerda (PSOE, PCE, POUM). O país estava dividido em dois grandes campos armados, começava a sangrenta guerra civil espanhola.

Nas províncias onde havia forte influência monárquica e uma numerosa população camponesa influenciada pela Igreja Católica, os rebeldes obtiveram rápidas vitórias. Em algumas regiões, os operários republicanos ingenuamente confiaram nos discursos legalistas dos oficiais e foram iludidos por eles. Ali suas lideranças foram presas e muitas sumariamente executadas. Implantou-se o “terror branco”. Nos locais onde existia um forte movimento operário-popular, e este tomou a iniciativa, mobilizando-se e armando-se, o golpe pôde ser detido.

Em Barcelona – capital da Catalunha –, os operários derrotaram as forças sediciosas, comandadas pelo general Goded, que foi fuzilado. A mesma coisa aconteceu em Madri, capital da República. No dia 20 as milícias e tropas legalistas atacaram o quartel onde se encontrava o general Fanjul que se viu imobilizado. Os operários armados passaram à ofensiva tomando os quartéis em torno da capital, e também de Guadalajara, Toledo e Alcalá. Isso se repetiu em muitas localidades. Os generais que pretendiam realizar um golpe rápido viram-se diante de um confronto de proporções nacionais.

Em 21 de setembro de 1936 os oficiais golpistas se reuniram em Salamanca e elegeram Francisco Franco como seu chefe, dando-lhe o título de generalíssimo. Em seguida todos os agrupamentos políticos foram fundidos num partido único: a Falange Espanhola Tradicionalista. Muitos que resistiram à fusão foram presos e alguns executados, apesar de serem de direita. Esta era um tipo de unidade que os republicanos nunca teriam.

Nas regiões dominadas pelos franquistas prosseguia o “terror branco” com execuções em massa de militantes e simpatizantes da República. O generalíssimo chegou a dizer que fuzilaria metade da Espanha se fosse necessário. Do outro lado da barricada se implantou o “terror vermelho”. Membros das falanges, oficiais e mesmo burgueses e religiosos tidos como inimigos da República eram presos e executados sumariamente. Igrejas continuavam sendo queimadas. Os comunistas e socialistas condenavam esse tipo de procedimento, que era alimentado de maneira inconsequente pelos anarquistas.

Não passarão! A Espanha republicana resiste

146835676097705O socialista Largo Caballero assumiu como primeiro-ministro em 4 de setembro de 1936. O seu governo era composto por seis socialistas, dois republicanos de esquerda, um nacionalista catalão, um nacionalista Basco e dois comunistas. E, pela primeira vez na história – depois de muitos debates –, os anarquistas (CNT-FAI) se decidiram pela participação num governo central e assumiram quatro ministérios. Eles, na verdade, já haviam decidido ingressar no governo da Catalunha. As necessidades da guerra e da revolução faziam que se rompessem muitos dogmas.

Naqueles anos o Partido Comunista Espanhol conheceu um crescimento vertiginoso, passando de 40 mil membros, antes de começar a guerra civil, para 130 mil alguns meses depois. No início de 1937, já possuía 250 mil militantes e no ano seguinte 500 mil. Ampliou sua base social para outros setores, muito além dos operários fabris. Transformou-se na força política mais destacada na luta contra os golpistas, embora sua participação no ministério não tenha sido muito grande.

Logo no início do conflito, os líderes da Republica pediram apoio dos governos europeus tidos como democráticos. Muita esperança era depositada na França dirigida pelo socialista León Blum – eleito por uma Frente Popular. Mas este, pressionado pela Grã-Bretanha e forças internas conservadoras, ficou praticamente imobilizado. Logo proporia aos demais países uma política de não intervenção. A Inglaterra e os Estados Unidos prontamente concordaram com a proposta e, assim, se viram desobrigados a dar qualquer apoio a um governo legitimamente eleito e ameaçado por um levante armado de caráter monárquico-fascista.

No fundo, a burguesia e o governo conservador inglês torciam pelos generais golpistas. A política de não intervenção era uma maneira indireta de ajudá-los. Atendendo a um pedido do próprio Franco, a Grã-Bretanha proibiu os navios republicanos de se reabastecerem em seus portos. Argumentava que isso violaria o espírito da não intervenção. Uma autoridade inglesa não conseguiu esconder os seus verdadeiros sentimentos em relação às duas experiências de frentespopulares no poder. Sir Maurice Hankey, secretário do governo, afirmou: “Com a França e a Espanha ameaçadas pelo bolchevismo, não é inconcebível que logo tenhamos de dividir nossa sorte com a Itália e a Alemanha”. As classes dominantes francesas tinham o mesmo sentimento. Muitos diziam preferir Adolf Hitler a León Blum.

A Alemanha nazista e a Itália fascista em público se diziam favoráveis à não intervenção, mas, de fato, apoiavam militarmente os generais rebeldes. Algo que nem ao menos procuraram esconder – embora as democracias ocidentais fingissem não ver. Cerca de 80 mil soldados italianos combateram ao lado de Franco. Mussolini forneceu aos rebeldes navios de guerra, submarinos, caminhões, tanques e armas de combate de todo tipo. Os italianos apesar de terem contribuído para algumas vitórias, como em Málaga, ficaram com má reputação enquanto combatentes. Sofreram várias derrotas desmoralizantes para os republicanos.

Hitler, por sua vez, enviou 19 mil soldados à Espanha. Entre eles destacaram-se os da Legião Condor, responsáveis pelo bombardeamento de alvos civis em inúmeras cidades italianas, a exemplo de Madri, Barcelona e Guernica. Somaram-se a eles mais de 10 mil portugueses e 70 mil mouros, vindos das colônias no norte da África. Sem esse apoio estrangeiro – incluída a política de “não intervenção”–, dificilmente os generais rebeldes teriam conseguido dar prosseguimento à guerra.

Se os governos da França, Inglaterra e Estados Unidos adotavam uma política de não intervenção – claramente favorável aos fascistas espanhóis –, as organizações operárias e socialistas desses mesmos países organizavam um amplo movimento de solidariedade à causa republicana. Coletavam dinheiro, roupas e remédios para enviar aos resistentes. Organizavam os primeiros corpos de voluntários para lutar contra o fascismo em terras espanholas.

A URSS desde o primeiro momento procurou articular o apoio à República, sem se envolver diretamente nos combates. Stálin agia com certo cuidado, pois temia pela própria segurança do Estado soviético, cercado por potências capitalistas hostis. Contudo, a intromissão cada vez maior da Itália e Alemanha o fez mudar de ideia. Ele concluiu que a vitória do fascismo na Espanha tornaria bem mais desfavorável a correlação de forças mundial. Coisa que os ingleses e franceses não compreenderam.

Em 18 de setembro, dirigentes da Internacional Comunista reuniram-se em Moscou para discutir o envio de voluntários à Espanha. Era o início da constituição das legendárias Brigadas Internacionais. Aproximadamente 40 mil voluntários, representando 54 países, se alistaram nelas. A maioria não tinha experiência militar e deveria ser treinada ao chegar. Havia também 2.100 conselheiros militares, pilotos, técnicos e agentes de inteligência soviéticos.

O próprio Stálin enviou um telegrama ao CC do PCE: “Ao ajudar no que for possível as massas revolucionárias de Espanha, os trabalhadores da União Soviética não fazem mais que cumprir o seu dever. Eles se dão conta de que libertar a Espanha da opressão dos reacionários fascistas não é assunto privado dos espanhóis e sim a causa comum de toda humanidade avançada e progressista”.

Depois de alguns meses de certo equilíbrio entre os dois lados no campo de batalha, os “nacionalistas” de Franco obtiveram vitórias importantes. Avançaram e conquistaram Badajoz na Estremadura, unificando as zonas norte e sul dominadas pelos rebeldes e aumentando a sua força. Consolidaram-se no Norte com a conquista das Astúrias e o país Basco. O próximo passo dos generais sediciosos deveria ser a conquista de Madri.

A capital da República preparou-se para a resistência que, num primeiro momento, foi realizada através das milícias operárias e populares. No entanto, estas tinham um grave defeito: eram fragmentadas entre as diversas tendências políticas (anarquistas, socialistas e comunistas) e quase não tinham articulação entre si – um fator essencial para se conduzir uma guerra daquela natureza. Os anarquistas resistiram muito a que se estabelecesse um comando central único, mas a difícil situação militar os obrigou a mudarem de ideia.

Uma poderosa força militar foi mobilizada contra a cidade. Diante da grave ameaça, em outubro, o general Miaja foi nomeado a suprema autoridade militar da região e o governo de Caballero transferiu-se para Valência. Estava para se iniciar uma das maiores epopeias daquela guerra: a defesa de Madri.

Às vésperas da grande batalha o navio Komsomol desembarcava em Cartagena levando o primeiro grande pacote de ajuda militar soviética ao esforço de guerra republicano. Através dos barcos russos chegavam fuzis, metralhadoras, canhões, tanques e aviões de combate. Estes representavam mais de 50% da Força Aérea republicana. Apoio que só iria crescer nos meses seguintes, gerando um profundo sentimento de agradecimento da parte do povo espanhol. “Viva a União Soviética!”, “Viva os russos!” passaram a ser gritos comuns nas grandes manifestações republicanas ocorridas em Madri e Barcelona.

Para reforçar as defesas da cidade entraram em ação as Brigadas Internacionais com cerca de 4 mil combatentes. Uniram-se a eles as colunas anarquistas comandadas por Buenaventura Durruti. Nos campos espanhóis lutaram os heroicos batalhões internacionalistas Thaelmann, Garibaldi, Lincoln, André Marty, Dimitrov, Comuna de Paris, entre outros. Nos dois primeiros engajaram-se exilados da Alemanha e Itália. Sabiam que se derrotassem o fascismo na Espanha estariam colaborando para derrubá-lo nos seus próprios países. Ao contrário do que ocorria no exército estadunidense, no Batalhão Lincoln lutavam lado a lado negros e brancos, inclusive existia um comandante negro: o comunista Oliver Law. Uma grande parte desses voluntários morreria em solo espanhol defendendo a liberdade.

Diante da poderosa ofensiva militar franquista sobre Madri, a imprensa mundial por várias vezes chegou a anunciar a sua queda iminente. Neste confronto mortal uma mulher iria se destacar. Era Dolores Ibarruri, La Pasionaria, dirigente do Partido Comunista da Espanha. Ela em seus flamejantes discursos dizia: “mais vale morrer de pé que viver de joelhos”. E concluía com a frase que se tornaria símbolo da resistência antifascista: “Não passarão!”. E, de fato, naqueles dias, as tropas de Franco – apoiadas pela Alemanha e Itália – não passaram pelas defesas de Madri. No final de novembro, tiveram que suspender a sua ofensiva sobre a cidade. O armamento soviético e os voluntários estrangeiros foram fundamentais para essa estratégica vitória.

As divisões na Frente Popular e o avanço do fascismo 

146835681397706Logo surgiu uma polêmica no interior da Frente Popular. Setores mais à esquerda, especialmente POUM, com influência trotskista, defendiam a expulsão dos republicanos burgueses, a formação de um governo operário com base nos conselhos – como ocorrera na Rússia em outubro de 1917 –, e a aplicação imediata de um programa de caráter socialista. Os comunistas e a maioria dos socialistas espanhóis propugnavam a manutenção do governo de Frente popular com a presença de todos aqueles que fossem favoráveis à República Democrática e contra o fascismo.

Eles achavam que não se devia abrir mão da bandeira da legalidade, que estava com o governo republicano eleito democraticamente. Isso lhe possibilitava ganhar apoio de setores não socialistas da sociedade espanhola e da comunidade internacional, especialmente nos países democráticos burgueses. Pela mesma razão criticavam – e procuraram impedir – os ataques indiscriminados às igrejas e a religiosos, e também o processo de expropriação generalizada. Apenas as empresas abandonadas pelos seus donos ou de interesse estratégico deveriam ser estatizadas. As pequenas e médias propriedades – na cidade e no campo – deveriam ser protegidas. Era preciso a todo custo impedir que a pequena burguesia e as camadas médias fossem ganhas para a causa da contrarrevolução. Os anarquistas e esquerdistas não compreendiam isso e faziam o jogo dos inimigos da República.

Os comunistas se queixavam também da falta de disciplina desses agrupamentos, chegando mesmo a acusá-los de serem forças contrarrevolucionárias. Acusação extremamente séria em meio a uma guerra civil sangrenta. Por outro lado, aquelas organizações denunciavam a repressão desencadeada pela polícia política dirigida pelos comunistas – com apoio de técnicos soviéticos. Falava-se de prisões em massa, torturas, execuções e desaparecimentos de líderes da extrema-esquerda. Uma guerra civil latente existia no interior das próprias forças populares, minando as possibilidades de vitória.

Na Catalunha o clima ficou insustentável. Em dezembro de 1936 o Poum saiu do governo regional e passou a fazer-lhe oposição. Juntou-se com setores da CNT (anarquista) e realizaram manifestações de protesto. Choques violentos ocorreram. Num deles, morreria Roldan Cortada, o líder da UGT. O enterro se transformou numa grande manifestação antianarquista e antitrotskista. Com medo de novos distúrbios, as comemorações do Primeiro de Maio em Barcelona foram canceladas. O pior ainda estaria por vir.

A situação explodiu em 3 de maio de 1937, quando o governo local, apoiado pelo Partido Socialista Unificado Catalão (PSUC), decidiu desalojar os militantes anarquistas e do POUM que ocupavam a Central Telefônica em Barcelona – um local estratégico no esquema defensivo republicano. Eles responderam com uma insurreição armada. Ocorreram novos conflitos que ocasionaram 500 mortos e mil feridos. Depois de derrotados, vários líderes da insurreição foram fuzilados. Os ministros anarquistas, que não se solidarizaram com os rebeldes catalães, continuaram no governo apoiando o esforço de guerra republicano.

Os comunistas então propuseram o fechamento do Poum e a prisão de seus líderes, considerados agentes provocadores a serviço do fascismo. Caballero discordou e chegou a sugerir a demissão dos ministros do PCE, mas ficou em minoria no gabinete. Mesmo os socialistas não aprovavam o seu comportamento à frente do governo. Além disso, sabiam que a guerra não podia ser vencida sem o apoio dos comunistas e da URSS. Os dias de Caballero estavam contados.

O novo primeiro-ministro seria o socialista Juan Negrin. Ele insistiria em fortalecer o poder central, na linha proposta pelos comunistas. Isso significava aumentar a repressão contra as tendências anarquistas e esquerdistas. Em junho, o Poum foi proscrito e seus membros perseguidos. Andreas Nin desapareceu depois de preso, possivelmente foi executado pela polícia política.

Por outro lado, Negrin buscou garantir a liberdade de culto e protegeu as igrejas e as propriedades daqueles que não haviam aderido à contrarrevolução. Por isso foi acusado de proteger a burguesia e travar o processo revolucionário. Ele responderia que sua missão imediata era ganhar a guerra, salvar a República e não fazer uma revolução socialista.

Neste ponto estavam de acordo os comunistas. Primeiro era preciso ganhar a guerra e derrotar o putch fascista, apoiado pela Alemanha e Itália, e depois o povo de maneira democrática decidiria o seu futuro. Solapar o esforço de guerra em nome da revolução era um contrassenso e significava fazer o jogo dos inimigos da República, da democracia e do socialismo.

Escreveu o secretário-geral do PCE, José Diaz: “a luta levada neste momento na Espanha é a luta entre a democracia e o fascismo. E creio que podemos afirmar mais: que ela é hoje uma guerra de libertação nacional. Uma guerra de independência da nossa nação (…). Hoje não lutamos apenas contra um inimigo interno (…). Não lutamos apenas pela liberdade na Espanha. Lutamos também pela independência da Espanha. Lutamos contra aqueles que vem invadir nossa terra (…). Nossa guerra é uma guerra nacional, uma guerra pela nossa independência, e ao assumir um caráter nacional, a guerra na Espanha cobra mais amplitude”.

Em abril de 1938 as tropas de Franco tomaram Aragon e a cidade de Castelon – atingindo o mar Mediterrâneo e dividindo o território republicano em duas partes: isolando a cidade de Barcelona, capital da Catalunha e da República, de Valência e Madri. Diante de tais derrotas, vários ministros começaram a vacilar e a defender uma saída negociada com Franco, mediada pelos ingleses. Entre eles estava o veterano Prieto, justamente o ministro da guerra. Isso levou a um choque com os comunistas, que desejavam resistir até o fim.

Barcelona foi tomada por grandes manifestações que exigiam a retirada dos ministros derrotistas. A UGT (socialista e comunista) e a CNT (anarquista) assinaram um pacto de unidade e ação contra o derrotismo e pela continuação da guerra até a vitória final. Algumas semanas depois, o gabinete foi reformulado e dele foram excluídos os ministros vacilantes, como Pietro. Estabeleceu-se um governo de união nacional, mantendo todas as organizações que defendiam a república, inclusive os anarquistas.

A traição final do Ocidente 

No plano internacional as coisas iam se complicando. Em abril de 1938 italianos e ingleses assinaram o tratado de Páscoa pelo qual, entre outras coisas, era reconhecida a ocupação da Abissínia por Mussolini. Poucos dias antes, a Alemanha havia anexado a Áustria, sob o silêncio constrangedor da Inglaterra e da França.

Outro fato iria abalar seriamente a confiança dos republicanos num possível apoio das democracias ocidentais. Em setembro foram assinados os acordos de Munique, firmados pelos governos da Alemanha, Itália, França e Inglaterra. Através deles os dois últimos países permitiriam a Hitler abocanhar parte do território da Tchecoslováquia (os Sudetos) – e depois todo o país. Os soviéticos ficaram chocados e pressentiram que aqueles acordos eram na verdade contra eles. Aos republicanos espanhóis ficava claro que nada mais podiam esperar das democracias ocidentais, que tudo sacrificariam para manter a paz com a Alemanha.

Numa posição defensiva e tentando dar mostras de boa vontade, em setembro de 1938, o governo Negrin anunciou a retirada de todos os combatentes estrangeiros e o fim das Brigadas Internacionais. Doze mil voluntários foram desmobilizados e em 29 de outubro eles desfilaram pela última vez nas ruas de Barcelona. Neste dia Dolores Ibarruri fez um dos seus mais comoventes discursos. Contudo, mais de 30 mil “voluntários” italianos e a temível Legião Condor continuaram combatendo na Espanha.

Poucos meses antes, em julho, os republicanos haviam dado uma cartada ousada e iniciado uma grande ofensiva tentando restabelecer a ponte com a Catalunha. A luta se deu em torno do rio Ebro. Durante as primeiras semanas se acenderam as esperanças de uma possível vitória. Em agosto Mussolini desconsolado chegou a dizer a seu chanceler Galeazzo Ciano: “hoje, 29 de agosto, prevejo a derrota de Franco. Este homem não sabe, ou não quer, fazer a guerra. Os comunistas são combatentes, Franco não!”.

Depois de idas e vindas, em 16 de novembro, os republicanos acabaram sendo finalmente derrotados por forças militares muito superiores. Eles haviam perdido 70 mil combatentes e seus adversários outros 60 mil numa das mais longas e sangrentas batalhas da guerra civil. Aproveitando-se da debilidade do adversário, Franco ocupou a Catalunha e entrou triunfante em Barcelona no dia 26 de janeiro de 1939. Poucos antes o governo Negrin havia abandonado a cidade e se refugiado na França.

Com uma nova guerra europeia à porta, matreiramente Franco assumiu o compromisso de ficar neutro quando ela ocorresse. Isso agradou aos britânicos e franceses. A vitória nacionalista e o fim da guerra civil espanhola seriam recebidos com alívio pelo primeiro-ministro inglês Chamberlain. Por isso, em 27 de fevereiro de 1939 – antes mesmo que ela tivesse terminado –, a Grã-Bretanha e a França reconheceram o governo ditatorial de Franco. No dia seguinte, Azaña se demitiu da presidência, bastante decepcionado com aquela atitude traiçoeira. Ao contrário, Negrin que escapara para a França depois da conquista de Barcelona resolveu voltar à Espanha e continuar na resistência ao lado dos comunistas.

Enquanto isso na zona republicana houve uma derradeira divisão no seio da Frente Popular. Muitos civis e militares dando a guerra como perdida se voltaram contra Negrin e o PCE. Comandados pelo general Segismundo Casado, eles deram um golpe de Estado e formaram uma junta militar, que afastou e perseguiu os comunistas. Em seguida tentou negociar um armistício com Franco. Pura ilusão, pois o generalíssimo queria uma rendição sem condições.

Em 6 de março, Negrin foi obrigado a abandonar definitivamente a Espanha. Os comunistas José Diaz, Palmiro Togliatti, entre outros, ficaram ainda por mais algum tempo visando a organizar a retirada dos últimos combatentes republicanos e suas famílias.

Nos últimos dias de março de 1939, as tropas do generalíssimo Franco ocuparam Madri e Valência. Era o fim da guerra civil que havia causado mais de meio milhão de mortos e quase o mesmo número de refugiados espalhados pelo mundo. A partir de então teria início uma ditadura que duraria até 1977. Irônica ou tragicamente, ela sobreviveria mais de três décadas após terem sido derrubados os regimes que a haviam inspirado e apoiado. Aquela experiência só pôde resistir por tanto tempo graças ao apoio do chamado mundo livre, capitaneado pelos Estados Unidos.

Conclusão

O golpe militar era para ser uma operação rápida, pois contava com o apoio da quase totalidade da oficialidade e das classes dominantes: a grande burguesia e os latifundiários. Também era apoiado pela hierarquia da Igreja Católica e as altas classes médias. Apesar disso tudo, num primeiro momento, os generais golpistas só conseguiram controlar 1/3 do país e, em geral, regiões onde já tinham grande influência as correntes conservadoras monárquico-católicas. O que seria um passeio se transformou numa guerra civil sangrenta que durou quase três anos.

Ao contrário do que dizem os revisionistas (de direita) não foi uma guerra suja dos dois lados. Apesar dos abusos que possam ter sido cometidos pelos republicanos, eram eles que estavam do lado da legalidade, da democracia e do progresso social. Foram os monárquico-fascistas que começaram a guerra e as execuções em massa dos elementos legalistas, inclusive de muitos oficiais do Exército que não aceitaram aderir ao golpe de Estado.

Se do lado republicano os massacres eram o resultado da desorganização do governo – pois nem socialistas nem comunistas os toleravam – do lado nacionalista, eles foram uma política de Estado. O “terror branco” era uma forma de exercer o seu poder sobre uma população inamistosa. Um terror que continuou por muitos anos após a vitória franquista em 1939.

A cínica política de não intervenção das democracias capitalistas ocidentais, que tratava igualmente os militares golpistas e o governo legítimo, foi decisiva para a derrota dos republicanos. E esta só não foi mais rápida graças à ajuda da URSS e do movimento comunista internacional. Sem esse apoio a República não teria resistido tanto tempo. Portanto, é extremamente injusta – e anti-histórica – a tese de que teriam sido os comunistas os responsáveis pela derrota republicana, devido às suas posições contrárias a se desencadear a revolução socialista imediata – sua insistência em manter a legalidade democrática– e a repressão exercida contra os anarquistas e especialmente aos esquerdistas do Poum.

Até o final do conflito, Stálin apoiou a República e foi praticamente o único a fazê-lo. Em janeiro de 1939 – quando a guerra já estava praticamente perdida –, ainda foi enviado em equipamentos militares o equivalente a 55 milhões de dólares. Assim, é completamente infundada a tese de que o auxílio soviético teria cessado ou reduzido drasticamente naquele momento, pois Stálin já estaria entabulando negociações que conduziriam ao pacto de não agressão com a Alemanha hitlerista. Este só seria assinado em agosto de 1939 depois de fracassadas as tentativas stalinistas de fazer o mesmo tipo de acordo com a Inglaterra e a França, visando a barrar o avanço nazista na Europa.

Como disse Salvadaró, na verdade, os republicanos perderam “definitivamente a guerra na frente da batalha diplomática. Hitler, Mussolini e Chamberlain foram os responsáveis pela vitória nacionalista, e não as ambíguas políticas de Stálin e a superioridade comunista. De fato, o PCE, a despeito de todos os seus erros, teve papel importantíssimo ao manter a resistência republicana ativa possivelmente por mais tempo do que provavelmente iria durar. A não intervenção se mostrou fundamental no cerco internacional da República”. Na mesma linha já havia escrito o presidente Azaña: “o governo britânico foi até aqui nosso maior inimigo. Todos os subterfúgios planejados pela não intervenção prejudicaram a República e favoreceram os rebeldes. A hipocrisia é tão transparente que atinge níveis de cinismo infantil”.

Uma ação mais enérgica da Inglaterra e da França poderia ter constrangido os países do Eixo e impedido o seu apoio aos militares rebeldes. Fato que, por si só, teria contribuído para a rápida derrota da contrarrevolução monárquico-fascista. Mas eles recusaram até mesmo o pedido soviético de estabelecer uma comissão de investigação para averiguar a participação alemã e italiana na guerra ao lado de Franco. Quando das notícias dos bombardeios sobre as cidades indefesas, como Madri, Barcelona e Guernica, o governo inglês apelou para que nenhum dos lados atacasse alvos civis. Puro cinismo, pois os republicanos não eram autores de atos bárbaros daquela natureza e sim vítimas deles.

Bibliografia

ALMEIDA, Angela Mendes de. Revolução e Guerra Civil na Espanha. São Paulo: Brasiliense, 1981.
BROME, Vicent. A batalha das Brigadas Internacionais. Lisboa: Livros do Brasil, 1965.
BROUÉ, Pierre. A Revolução Espanhola (1931-1939). São Paulo: Perspectiva, 1992.
SALVADÓ, Francisco J. Romero. A Guerra Civil Espanhola.Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
TOGLIATTI, P.; DIAS, J.; CARRILLO, S. Los comunistas y La Revolución Española. Barcelona: Bruguera, 1979. 

*Augusto C. Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Editora Anita Garibaldi.

 

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