Opinião

Brasil e EUA: o empenho de Lula e Biden para abrir nova etapa nas relações bilaterais

22/09/2023

É positivo abrir novo caminho nas relações bilaterais, mais uma demonstração da capacidade diplomática e liderança de Lula como um grande estadista do século 21, escreve José Reinaldo Carvalho, dirigente do PCdoB

Por José Reinaldo Carvalho (*) – A iniciativa de parceria para a promoção do “trabalho digno” entre o Brasil, representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e os Estados Unidos, pelo presidente Joe Biden, marca um ponto importante nas relações bilaterais entre os dois países. O lançamento da parceria pelos direitos dos trabalhadores é uma sinalização para o combate à precarização do trabalho. A iniciativa reflete um reconhecimento internacional das necessidades e direitos dos trabalhadores. É positivo ver líderes mundiais colocando a proteção dos trabalhadores como uma prioridade em meio a outras questões globais. A repercussão foi positiva na opinião pública e nos meios sindicais. Lula cercou-se do apoio de líderes trabalhistas e levou em sua comitiva os presidentes das principais centrais do país.

Há ainda algumas interrogações sobre a exequibilidade do que foi tratado entre os dois presidentes. No ambiente tecnológico e globalizado atual, será um desafio impor legislações nacionais que coíbam os abusos contra os trabalhadores e proteger seus direitos. Há que tomar em consideração que cada nação possui sua própria dinâmica e abordagem em relação aos direitos trabalhistas. Para além disso, os interesses econômicos e políticos divergentes entre Brasil e Estados Unidos podem limitar o alcance e a eficácia dessa parceria, especialmente quando confrontados com diferentes abordagens sobre políticas trabalhistas e econômicas.

Politicamente, e visto na abrangência dos temas discutidos, o encontro bilateral entre os presidentes Lula e Biden evidencia a disposição mútua de trabalhar juntos para enfrentar desafios globais, como a crise climática, e promover o crescimento econômico inclusivo. Isto fortalece as relações diplomáticas e abre caminhos para a cooperação, a despeito das assimetrias entre os dois países, das divergências de interesses e das posições antagônicas em temas cruciais. Para o Brasil, é positivo que se abra um novo caminho para o desenvolvimento das relações bilaterais. Para o governo do presidente Lula, mais uma demonstração da sua capacidade diplomática e liderança, firmando-o como um grande estadista mundial do século 21.

Por outro lado, o histórico de intervenções, golpes, ações de espionagem e ameaças contra a soberania nacional brasileira e dos demais países latino-americanos e caribenhos gera entre as forças progressistas e patrióticas brasileiras dúvidas e desconfianças, além de zelos acrescidos relativamente à defesa da soberania nacional brasileira. Avaliando positivamente as demarches diplomáticas do presidente Lula e os bons resultados dos entendimentos com o chefe da Casa Branca, nunca é demais ressaltar que é imperioso para o Brasil manter uma postura firme para garantir que seus interesses sejam respeitados e que a parceria seja realmente benéfica ao país.

Felizmente, está em plenas funções aqui um governo progressista, que defende a soberania nacional e luta pela inserção soberana do país no mundo competitivo e globalizado. Já se foi o tempo do mantra “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, assim como de leniência quanto à Amazônia e outros interesses estratégicos do país alienados por uma classe dominante e governos entreguistas. Igualmente, a economia nacional se tornou mais complexa e o Brasil já não pode ser enquadrado na categoria de neocolônia de potências imperialistas, sejam os EUA ou as europeias. Leve-se em conta também a nova conjuntura mundial, de multipolaridade, em que os EUA, malgrado se mantenham como superpotência, já não conseguem fazer valer unilateralmente suas posições no mundo, o que reduz as possibilidades de submeter a nação brasileira a um alinhamento a políticas internas e externas do exclusivo interesse norte-americano.

O Brasil pertence ao Sul Global, seus interesses nacionais se entrelaçam com as aspirações comuns da humanidade ao desenvolvimento, à justiça social, cooperação e paz, o que condiciona positivamente a política externa, sob o primado do universalismo, da cooperação baseada nos princípios da igualdade, do respeito mútuo, dos ganhos recíprocos, sempre tendo presente a necessidade de promover o desenvolvimento nacional e elevar o bem-estar do povo brasileiro.

Valorizando os resultados do encontro bilateral entre Lula e Biden, não se pode perder de vista que os interesses estratégicos e objetivos táticos do Brasil e dos Estados Unidos são distintos em muitos aspectos. O Brasil está no centro de uma disputa geopolítica na qual o interesse imediato dos EUA é afastá-lo da China, maior parceiro comercial e investidor externo direto, e dos países revolucionários da região, designadamente Cuba, Venezuela e Nicarágua. Outrossim, no quadro do atual conflito no Leste europeu, são intensas as pressões para que o Brasil se alinhe à Ucrânia, condene e sancione a Rússia e compartilhe as políticas militaristas do eixo Washington-Bruxelas.

Lula deixou claro na Cúpula do G77+China realizada em Havana em 9 e 10 de setembro e na Assembleia Geral da ONU que mantém a solidariedade a Cuba. E são múltiplas as manifestações de que são cada vez mais sólidos os laços estratégicos com a China. Impossível o alinhamento do gigante do Cruzeiro do Sul com as políticas norte-americanas de contenção ao desenvolvimento e ascensão da China.

Os Estados Unidos continuam considerando a América Latina como parte de sua esfera de influência. A presença chinesa na região desafia essa perspectiva, gerando uma reação dos EUA para proteger seus interesses e manter sua influência na região. O Brasil deve estar atento para que a luta dos EUA contra a China não o coloque em situações políticas delicadas, e o pressione a escolher lados em questões internacionais. Manter uma política externa independente e pragmática é essencial para garantir os interesses nacionais brasileiros.

Para além da tentativa de recuperar o terreno perdido na região latino-americana e caribenha, os Estados Unidos são hiperativos no lançamento de iniciativas globais para enriquecer seu arsenal de instrumentos na disputa por hegemonia mundial. Não são inocentes nem desinteressados os acenos de aliança com o Brasil. Durante o encontro com Lula, Biden mencionou a assinatura de uma parceria dos EUA com 31 países banhados pelo Oceano Atlântico nas Américas, Caribe, África e Europa. A Declaração sobre a Cooperação Atlântica, lançada em 18 de setembro, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, cria um novo fórum multilateral. O informe do Departamento de Estado dos EUA assinala: “Esta Parceria é o primeiro agrupamento que abrange o Atlântico Norte e Sul e aborda uma vasta gama de questões, desde o desenvolvimento econômico à proteção ambiental, passando pela ciência e tecnologia. É também a primeira vez que tantos países atlânticos reúnem-se para estabelecer um fórum através do qual possamos trabalhar juntos de forma mais regular e estabelecer, através da Declaração, um conjunto de princípios partilhados para a região atlântica, tais como um compromisso com um Atlântico aberto, livre de interferências, coerção ou acções agressivas”. O Brasil é um dos países signatários e integrantes da parceria atlântica.

A Declaração Conjunta destaca entre outros o “compromisso de defender o direito internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas, para promover um Atlântico aberto no qual os Estados atlânticos estejam livres de interferência, coerção ou ação agressiva”. Perante Lula, Biden fez questão de vincular a Declaração à “defesa dos direitos humanos e da democracia”.

A diplomacia é sempre feita de símbolos, gestos e alusões. Decerto, os destinatários receberam e anotaram o recado.

(*) Jornalista, editor do Resistência, editor internacional do Brasil 247, secretário-geral do Cebrapaz – Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz. Coordena a atividade de solidariedade internacional do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB. Este artigo orienta e assessora os dirigentes e membros do partido nas ações de solidariedade internacional

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