Eleição na França

Comunistas franceses ajudaram a barrar a extrema-direita mas afirmam que com eleição de Macron não há o que comemorar

07/05/2017

Em nota divulgada imediatamente após a proclamação dos resultados do segundo turno da eleição presidencial na França, o líder do Partido Comunista Francês, Pierre Laurent, emitiu declaração em que destaca a derrota da candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, proclama-se em oposição às políticas neoliberais do presidente eleito, Emmanuel Macron, e faz um apelo à união das forças de esquerda nas eleições legislativas de 11 e 18 de junho. Leia a íntegra.

Esta noite a candidata da Frente Nacional não foi eleita. Isto é um alívio. Uma ampla maioria de eleitoras e eleitores não quis conduzir à chefia do Estado as suas ideias de ódio e divisão, seu projeto racista e xenófobo, sua política violentamente discriminatória, liberal e belicista.

Nós, comunistas, estamos orgulhosos de ter trabalhado com clareza para essa derrota, pois sabemos que ela continua a ameaçar a República e sua unidade. Não queremos isso, a nenhum preço, nem hoje nem amanhã.

Mas esta noite o nosso coração não está em festra. O nosso país vive um grave momento. Este segundo turno  foi novamente um seríissimo alerta para todos aqueles e aquelas que são adeptos da democracia e da igualdade. Marine Le Pen, com 35%, obtém 14% a mais do que no primeiro turno. É o resultado da banalização das ideias de extrema-direita que mais do que nunca nós estamos decididos a combater. É também o resultado de décadas de alternância entre políticas desfavoráveis aos interesses populares, de traições e cedências dos sucessivos governos. Nós compartilhamos nesta noite a profunda ira de milhões de pessoas que se sentiram numa armadilha neste segundo turno. Uma armadilha montada pelos mecanismos da Quinta República usada e pervertida. No futuro, nós não queremos mais ser obrigados a votar por exclusão para derrotar a extrema-diereita. Não queremos mais vê-la tão alta. Para isso, é necessário construir a vitória de uma verdadeira mudança de política que liberte a França da tutela dos mercados financeiros, que proclame que “o humano é prioritário” e combata a dominação da finança conquistando novos poderes em todos os níveis, que abra o caminho a uma nova sociedade de felicidade, de solidariedade, de justiça, ecologia, paz e igualdade.

Não é Emmanuel Macron, o candidato dos meios financeiros, eleito nesta noite presidente da República, que fará estas escolhas progressistas. Ele quer transformar tudo em mercadoria na sociedade. Sua eleição é frágil. Os milhões de eleitores que votaram em Macron quiseram antes de tudo barrar o caminho de Marine Le Pen ao Palácio do Eliseu. Já no primeiro turno, eles eram numerosos a votar em Macron por exclusão, para evitar um duelo entre Fillon e Le Pen. Seu projeto, enormemente neoliberal e portador de graves regressões sociais e democráticas, é minoritáriio no país. O que fica na ordem do dia é a construção de uma alternativa de transformação social, ecológica e democrática à sua política, e de uma nova maioria de esquerda para a garantir. A partir de amanhã e durante os próximos cinco anos, os comunistas estarão mobilizados para avançar nesse caminho com todos aqueles e aquelas que estejam disponíveis para isso.

Ao tipo de Código do Trabalho que enfraquece os direitos dos trabalhadores, nós oporemos uma garantia do emprego e da formação para erradicar o desemprego e a precariedade, criando novos poderes nas empresas e sobre os bancos em face dos mercados financeiros. Ao recuo do direito à aposentadoria e à privatização da Seguridade social facilitadas pela supressão anunciada de cotizações sociais, nós oporemos um plano de defesa e de desenvolvimento da Seguridade social. À redução de 60 bilhões de euros das despesas públicas e à supressão de 120 mil funcionários, nós oporemos um plano de relançamento dos serviços públicos. Às iniciativas para governar autoritariamente, nós oporemos o respeito à democracia. Combateremos totalmente os projetos antissociais de Macron, e os os projetos ultrarreacionários da direita e da extrema-direita.

É com esse espírito que queremos conduzir as eleições legislativas de 11 e 18 de junho próximo. O Partido Comunista Francês (PCF) empenha desde esta noite todas as suas forças. Nenhuma maioria parlamentar pode ser adquirida por uma pessoa. O nosso povo tem uma nova chance para decidir sobre o seu presente e seu futuro.

Com a força dos votos de milhões de cidadãos em Jean-Luc Mélenchon no dia 23 de abril (1º turno), com todas as forças que apoiaram sua candidatura e todos aqueles que podem juntar-se a nós, podemos ir bem alto, juntos, para eleger na Assembleia Nacional, uma forte representação nacional. Unidos, podemos ganhar em numerosas circunscrições eleitorais. Desunidos, os ganhos serão limitados e isto deixaria o lugar livre aos deputados do “En Marche” (Macron), da direita e da extrema-direita. Temos grande responsabilidade comum diante de todos os eleitores de esquerda e ecologistas. Eles pedem que nos unamos.

Para isso, é necessário um acordo nacional amplo, equitativo e representativo, sob uma bandeira comum que nos una a todos, França Insubmissa (Mélenchon, N.doT.), Partido Comunista e cidadãos da Frente de Esquerda. Isto corresponde à expectativa e à esperança da maioria dos eleitores que deram seus votos em 23 de abril a Jean-Luc Mélenchon. O Partido Comunista está pronto para um tal acordo.

Em todo caso, unidos, podemos agir para barar o caminho à Frente Nacional em numerosas circunscrições onde esta pode se enraizar por longo tempo. Podemos escolher em cada circunscrição o candidato que nos dê as máximas chances de ganhar. Novamente, lançamos esta noite um apelo solene aos dirigentes políticos da França Insubmissa: ainda não é muito tarde para chegar a um tal acordo nacional. E continuamos prontos, se esta ambição não for compartilhada, a um acordo mesmo que limitado. Nós apelamos ao diálogo em todo o território nas próximas horas.

Nosso partido está empenhado nestas eleições com uma ambição: “Fazer com que o povo entre na Assembleia”. Os candidatos e as candidatas comunistas e da Frente de esquerda que apoiamos desenham a face da França do mundo do trabalho, privado e público, trabalhando em todas as profissões, sindicalistas, cidadãos e cidadãs engajados em seus territórios, de diversas origens, jovens candidaturas portadoras da renovação política, assim como mulheres e homens experientes, plenos de responsabilidades como eleitos locais.

Estejamos fortes e unidos a partir de amanhã para continuar o combate contra a extrema-direita e fazer com que retrocedam as ideias retrógradas, para mobilizar desde agora a resistência e os projetos alternativos à política de quebra social e de agravamento da crise e das desigualdades que o novo presidente quer pôr em prática.

Concretizemos, assim, a promessa de uma nova esquerda, que nasceu nas urnas em 23 de abril.

Paris, 7 de maio de 2017
Pierre Laurent, secretário nacional do PCF
Tradução de José Reinaldo Carvalho, para Resistência 

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