Opinião

Hora de avançar

21/08/2023

“A novidade é que, nos últimos dez dias ou quinze dias, a situação política brasileira passa por um momento de viragem”, escreve Dilermando Toni

Por Dilermando Toni (*) – A disputa pelos rumos do Brasil, que acontece na arena política, tem sido cheia de altos e baixos, idas e vindas, em um quadro sem grandes rupturas. A novidade, de vinte anos para cá, é que tem prevalecido na maior parte do tempo, um dos polos dessa disputa composto por forças que, além de progressistas têm viés popular, caracterizadas como forças de esquerda, mais especificamente, o PT, o PCdoB, o PV que hoje formam a Federação Brasil da Esperança, além do PSB, PSOL, PDT e da REDE. Em torno desses partidos se juntou boa parte do centro político e mesmo partidos conservadores naquilo que consiste numa frente ampla, costurada com maestria pelo líder maior dessa articulação política, o presidente Lula.

A vitória na disputa eleitoral presidencial foi tão grande quanto difícil, tendo daí emergido um quadro contraditório, um executivo progressista que derrotou o neofascista Jair Bolsonaro e um parlamento altamente conservador disposto majoritariamente, a buscar a continuidade do bolsonarismo. Conseguir governar em uma situação dessas, em um sistema que não é bem presidencialista nem parlamentarista, tem se mostrado muito difícil, obrigando frequentemente o governo de Lula a manobras defensivas. Até aqui nenhuma novidade.

Acontece que nestes 8 meses transcorridos desde a posse, uma ação combinada do novo governo e da cúpula do Judiciário brasileiro, em nome da defesa e do fortalecimento da democracia, passaram a cobrar as consequências legais dos inúmeros atos golpistas, a corrupção, a falsificação de documentos ou ainda o negacionismo criminoso do governo derrotado de Jair Bolsonaro. Assim, manifestantes e financiadores dos atos golpistas estão presos e sendo condenados, o entorno do ex-presidente em boa parte está preso, a cúpula golpista da PM do DF também está presa, ou ainda se coloca a possibilidade de Bolsonaro ser preso.

Tudo isso, ao lado de revelações sobre tentativas de influenciar o resultado do pleito pela ação dirigida da PRF ou pela burla das urnas eletrônicas, se constitui num amplo libelo acusatório cuja resultante é a colocação na defensiva da extrema direita no país. Isso acontece simultaneamente ao crescimento da aprovação do governo Lula nas enquetes de opinião, o que acontece surpreendentemente no sul do país, bastião do bolsonarismo. A novidade é que, nos últimos dez dias ou quinze dias, a situação política brasileira passa por um momento de viragem no qual as forças progressistas e os movimentos sociais já começam a avançar e a vislumbrar um quadro mais favorável a elas.

A nova correlação de forças que se delineia, se bem trabalhada poderá trazer muitas coisas boas para a democracia e a economia do Brasil. Pode mesmo influenciar os resultados da eleição do ano que vem favoravelmente às forças progressistas. Pode também tornar neutralizável boa parte do Congresso brasileiro e dos governos estaduais conservadores.

Isso é o que faz Lula agora se empenhando em ampliar a base de sustentação de seu governo com novos partidos, é o que faz Lula também ao desencadear toda uma série de medidas emergenciais que melhoram a vida de nosso povo. Ou ainda conseguindo estabilizar a economia numa situação de crescimento, embora limitado.

As forças mais consequentes desse processo, nas quais os comunistas se incluem, sabem perfeitamente da necessidade dessa grande frente como fator de sustentação de um processo de reconstrução nacional. Ao mesmo tempo, se quiserem prosperar enquanto força política, têm que se diferenciar dentro desta mesma frente. Aos comunistas cabe, portanto, defender a democracia, a soberania nacional e o desenvolvimento do país e, simultaneamente, descortinar o socialismo como verdadeira, profunda e única solução às mazelas do capitalismo brasileiro.

Dizem os manuais militares que quando o inimigo avança nós temos que recuar, quando ele para temos que fustigá-lo e quando ele foge temos que persegui-lo. Sem precipitações e com sabedoria saibamos colher as vantagens que a nova situação política vai oferecendo.

(*) Jornalista, ex-editor de A Classe Operária, autor na revista Princípios. Foi membro da direção nacional do PCdoB

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