Opinião

Mundo multipolar e comunidade de futuro compartilhado, temas essenciais na vida política internacional

30/11/2023

Intervenção de José Reinaldo Carvalho no 13º Fórum sobre o Socialismo Mundial, realizado na China nos dias 28 e 29 de novembro

Por José Reinaldo Carvalho (*) – Participei nos dias 28 e 29 de novembro do 13º Fórum sobre o Socialismo Mundial, promovido pela Academia Chinesa de Ciências Sociais. Compartilho com os leitores o texto que apresentei

Na busca de um mundo equilibrado em meio a desafios e contradições internacionais, tem importância crucial a construção de uma comunidade de futuro compartilhado, conforme proposição do presidente chinês Xi Jinping há uma década.

O desejo de criar um mundo equilibrado, justo, pacífico e próspero para toda a humanidade enfrenta a dura e complexa realidade das guerras, das contradições sociais, das desigualdades, dos desequilíbrios ambientais e dos ataques aos governos populares. A situação internacional coloca uma série de desafios e problemas que afetam a luta dos povos pelo desenvolvimento, a paz e a justiça.

O mundo vive um momento turbulento, portanto mais desafiador, imerso em uma crise multidimensional de proporções sem precedentes que resulta em conflitos sociais e geopolíticos. A crise do sistema capitalista persiste, as desigualdades nacionais e sociais se intensificam e os problemas que atingem as massas populares, como a exploração do trabalho, o desemprego, a expansão da miséria e a deterioração das políticas públicas, típicas do neoliberalismo, se agravam. Acentuam-se as características mais perniciosas e injustas do sistema econômico internacional.

Fatores de crise econômica, social e ambiental se entrelaçam com as contradições geopolíticas. A desigualdade social persiste e se agrava em todo o mundo. Muitos países enfrentam desafios relacionados à desigualdade de acesso à educação, saúde e emprego, o que constitui uma violação dos direitos humanos e leva a tensões políticas e conflitos. A disparidade de riqueza entre e dentro das nações é um grande obstáculo para alcançar um mundo mais justo e equitativo. Enquanto algumas regiões estão prosperando, outras continuam a lidar com a pobreza e o subdesenvolvimento. A concentração de riqueza nas mãos de uma elite econômica, onde o 1% mais rico possui quase metade da riqueza mundial, é um exemplo disso.

As alterações climáticas e a degradação ambiental representam uma ameaça crescente ao bem-estar social e à estabilidade global. A exploração insustentável dos recursos naturais e a falta de ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa contribuem para desequilíbrios ambientais significativos. Eventos climáticos extremos estão se tornando mais frequentes, causando danos econômicos e humanos consideráveis. A escassez de recursos naturais pode levar a conflitos. A principal responsabilidade histórica por este fenômeno cabe aos países ricos, e são eles que têm de suportar o ônus financeiro de o reverter.

Os conflitos armados persistem em várias partes do mundo devido a interesses predatórios e políticas intervencionistas das potências imperialistas, que buscam impor seus privilégios pela força. Esses conflitos se devem a interesses geopolíticos, rivalidades e ambições imperiais das grandes potências.

A democracia está ameaçada, o que também afeta a paz. A segurança global é desafiada pela proliferação de bases militares e armas nucleares dos EUA. O imperialismo norte-americano busca a todo o custo reverter a existência de um mundo multipolar e impedir os esforços das nações independentes para estabelecer uma ordem internacional estável e segura, baseada no multilateralismo genuíno e não no hegemonismo nas relações internacionais.

O fenômeno mais marcante de nosso tempo é a emergência de um mundo multipolar, resultado do declínio histórico do imperialismo norte-americano, da ascensão da China como potência econômica e de um país mais influente política e diplomaticamente. Outro fator que sinaliza o surgimento do mundo multipolar é o ressurgimento do poder nacional russo. Após a Guerra Fria, os Estados Unidos emergiram como a única superpotência do mundo. No entanto, seu poder relativo diminuiu nas últimas décadas devido a uma série de fatores, como desafios econômicos e envolvimento em guerras diretamente ou por procuração.

A China experimentou um crescimento econômico notável nas últimas décadas, tornando-se a segunda maior economia do mundo e a maior potência comercial. Além disso, adotou uma postura mais assertiva nos assuntos internacionais, fortalecendo suas relações ao redor do mundo, tornando-se uma potência global proeminente e um contrapeso ao poder dos EUA.

A Rússia, após o colapso da União Soviética, passou por um período de fraqueza. No entanto, nas últimas duas décadas, o país recuperou sua influência regional e global. O seu envolvimento em conflitos na Ucrânia e na Síria, bem como o desenvolvimento de capacidades militares avançadas sublinham o seu papel como ator relevante no cenário internacional.

Além disso, a emergência de novos blocos não hegemônicos, como a Organização de Cooperação de Xangai, BRICS e Celac, entre outros, desempenha um papel fundamental na mudança da situação geopolítica. Esses blocos representam os esforços de países em desenvolvimento e emergentes para fortalecer sua posição na política internacional. Eles promovem a cooperação econômica, política e de segurança, muitas vezes desafiando a influência tradicional das potências ocidentais.

A convergência desses fatores contribui para o surgimento de um sistema internacional multipolar. A multipolaridade não garante automaticamente a paz e o equilíbrio, pois pode acarretar novos conflitos. No entanto, desafia a hegemonia dos Estados Unidos e seus aliados, o que poderia levar a mudanças nas normas e instituições internacionais.

Esse cenário inclui o agravamento das contradições entre as potências imperialistas e o Sul Global, divisão que reflete desigualdades e injustiças, e que se traduz em contradições geopolíticas e conflitos internacionais. Ao longo da história, as potências imperialistas construíram nações altamente desenvolvidas e industrializadas, com infraestrutura avançada, indústrias de alta tecnologia e um alto padrão de vida.

Por outro lado, os países em desenvolvimento do Sul Global estão lutando para se libertar de economias frágeis, pobreza, infraestrutura desatualizada e falta de acesso à tecnologia e recursos financeiros. Isso resulta na incapacidade de prover serviços básicos de saúde e educação para suas populações.

Os países imperialistas dominam as instituições internacionais de tomada de decisão, impõem suas agendas e decisões políticas que multiplicam seus privilégios, além de terem poder militar e influência política para realizar intervenções e guerras.

A busca dos países do Sul Global por novos alinhamentos internacionais, por meio da adesão a grupos e blocos alternativos aos dominados pelo imperialismo, está se intensificando, como mostra o alto número de pedidos de adesão ao Brics ampliado e a organização de eventos como a Cúpula do G77 mais China, como a realizada recentemente em Havana, Cuba. Essas contradições Norte-Sul têm raízes históricas profundas, incluindo o legado do colonialismo, a exploração dos recursos naturais, as dívidas externas e as relações comerciais desiguais. Elas têm implicações significativas para as relações internacionais, como negociações comerciais, assistência ao desenvolvimento, governança global e segurança internacional. A superação dessas disparidades requer uma luta de caráter anti-imperialista e, portanto, essas mobilizações se somam à luta pela paz e por uma nova ordem econômica e política internacional.

Neste contexto de crise global, conflito e turbulência, não é surpreendente que os povos e nações que lutam por sua independência, progresso e justiça vejam com bons olhos o processo de modernização socialista chinês, promovido pelo presidente Xi Jinping. É uma modernização que, em termos de política externa, segue o caminho do desenvolvimento pacífico, que resultará na conquista da paz, do equilíbrio e da estabilidade no mundo. É auspicioso que, em relação às disputas internacionais, a China defenda a consulta e o diálogo para chegar a uma solução pacífica. A Iniciativa de Segurança Global proposta pelo presidente Xi Jinping apontou a direção certa para a segurança comum e universal. Este é um exemplo edificante de que a segurança deve ser coletiva. Em caso algum é aceitável que a segurança de um ou de alguns seja garantida à custa da insegurança de outros.

Ao mesmo tempo, a Iniciativa de Desenvolvimento Global procura orientar o desenvolvimento global para uma nova fase de crescimento equilibrado, coordenado e inclusivo face aos graves choques na situação económica e social que as pessoas e as nações estão a viver.

“Devemos revitalizar a economia e buscar um desenvolvimento global mais forte, verde e equilibrado”, disse Xi em sua declaração proferida no debate geral da 76ª sessão da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2021. Foi um apelo às nações do mundo para que fizessem do desenvolvimento uma prioridade e, ao mesmo tempo, um compromisso solene da China para cumprir essa tarefa. O compromisso do presidente Xi está no cerne da modernização socialista centrada no povo da China. Isso é benéfico para o mundo e constitui o foco principal da ideia de construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.

As iniciativas chinesas têm o potencial de influenciar profundamente o sistema global. Elas oferecem oportunidades econômicas e de desenvolvimento para muitos países, ao mesmo tempo em que levantam preocupações sobre a crescente influência geopolítica da China. É crucial que a comunidade internacional preste atenção a estes desenvolvimentos e encontre um equilíbrio entre trabalhar construtivamente com a China e proteger os interesses e valores fundamentais numa ordem global em constante evolução. O impacto global das iniciativas chinesas continuará a ser uma área de grande interesse e debate na política internacional.

Este impacto será inevitavelmente sentido também no Brasil e reciprocamente o desenvolvimento da situação em nosso país influi no panorama internacional. A vigência do governo democrático e progressista no Brasil, liderado pelo presidente Lula, constitui um fator que impulsiona a multipolaridade, a cooperação internacional e a paz mundial.

O Brasil tem muito a oferecer e a se beneficiar de uma comunidade de futuro compartilhado, o que ressalta a importância de o país consolidar ainda mais a parceria estratégica de alto nível com a República Popular da China e os partidos da esquerda brasileira com o Partido Comunista da China.

(*) Jornalista, editor do site Resistência, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB, onde é responsável pelo setor de Solidariedade e Paz. É também membro da direção do Cebrapaz – Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz

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