Entrevista

Noam Chomsky: “O que está acontecendo no Brasil é um golpe branco”

07/06/2016

Figura destacada da linguística do século XX e considerado um dos pensadores contemporâneos mais influentes, Noam Chomsky nasceu no dia 07 de dezembro de 1928 na Filadélfia, Estados Unidos. É, também, amplamente reconhecido por seu ativismo político, caracterizado por uma forte crítica do capitalismo contemporâneo e da política externa dos Estados Unidos.

A poucos meses das eleições presidenciais, que serão no dia 08 de novembro, em seu país, Chomsky reflete sobre o resultado das primárias, esboça possíveis razões do êxito obtido por Donald Trump e introduz o “medo” como variável de peso. O acadêmico refere-se, além disso, à política externa norte-americana a partir da visita de Barack Obama a Cuba, a situação de milhares de refugiados na Europa, a conjuntura da América Latina e o “golpe branco” contra Dilma Rousseff.

A entrevista é de Bárbara Schijman e foi publicada por Página/12, nesta segunda-feira (6). A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual é a sua análise sobre o resultado das eleições primárias nos Estados Unidos?

A característica mais marcante foi a forte oposição popular aos programas neoliberais da geração anterior, e o declínio da democracia associada a eles. Em ambos os partidos, o “establishment” está sendo atacado por forças que ressentem amargamente estas políticas, e com razão.

Do lado republicano, o establishment foi capaz de destruir candidatos que surgiram da base, como aconteceu com Michele Bachmann, Herman Cain, Rick Santorum, e nomear o seu próprio homem, Mitt Romney. Desta vez foi diferente. Agora estão presos a um candidato que eles mesmos veem como um pesadelo.

Do lado democrata, Bernie Sanders teve um êxito considerável em promover um programa ao estilo do New Deal, o qual, de fato, tem um apoio popular muito importante. E, notavelmente, fê-lo sem depender inclusive das concentrações de poder econômico privado para o financiamento massivo, que costuma dominar o sistema eleitoral. Claramente, a classe operária masculina branca que apoia Donald Trump está cometendo um grande erro.

Por quê?

Além de certa retórica, as políticas que ele propõe são gravemente prejudiciais aos interesses dessa mesma classe operária (e até mais que isso). Mas suas queixas são reais e compreensíveis, e de forma significativa se superpõem àquelas dos diferentes setores que estão apoiando Sanders.

Há um desenvolvimento dos acontecimentos similar na Europa, por razões um tanto afins. O neoliberalismo foi uma maldição para a população em geral, em todas as partes do mundo; um assunto que não requer elaboração alguma se pensarmos na América Latina.

Qual é a composição, hoje, do eleitorado de Trump?

Deixando de lado elementos racistas, ultranacionalistas e fundamentalistas religiosos (que não são menos importantes), os partidários de Trump são em sua maioria brancos de classe média baixa, da classe trabalhadora e menos educada, gente que foi marginalizada durante os anos neoliberais.

Sua popularidade é, em certa medida, alimentada pelo medo arraigado e a desesperança que podem ser causados por um aumento alarmante nos índices de mortalidade para uma geração de pouca educação. O fato de que a mortalidade esteja aumentando nestes setores é uma questão desconhecida nas sociedades desenvolvidas e um sinal de profundo mal-estar social.

Os salários reais da população masculina estão no nível da década de 1960. O crescimento econômico foi embolsado por uma pequena minoria que vive em um mundo diferente da grande massa da população. A insegurança trabalhista aumentou e isto foi o fruto de uma decisão consciente.

Poderia ampliar esta última questão?

O ex-presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, chegou a explicar ao Congresso que seus êxitos na gestão da economia, que levou a um desastre global, se basearam em uma “crescente insegurança trabalhista”; uma notícia maravilhosa, porque significa que as pessoas que trabalham nem sequer conseguem um pedacinho do bolo, e os lucros para os ricos são seguros. Neste sentido, se os trabalhadores carecem de segurança e vivem vidas precárias, seguramente renunciam às suas demandas. Não tentarão conseguir salários melhores. Isto é o que, tecnicamente falando, Greenspan chamava de uma economia “saudável”.

É evidente que as opiniões dos trabalhadores e dos pobres são praticamente ignoradas pelo sistema político, que responde quase em sua totalidade aos poderosos, como demonstram todos os estudos que se fazem sobre este assunto. Estão indignados, e com razão, mas como costuma acontecer, estão dirigindo sua raiva contra minorias ainda mais vitimizadas que eles: os imigrantes e outros grupos vítimas de um “bem-estar fraudulento” (todo tipo de pessoas que de alguma maneira acreditam que estão recebendo o que não estão recebendo) inventado pela propaganda da direita.

Que papel exerceu o apelo ao medo como estratégia eleitoral?

No caso do Trump, parece que seu atrativo se baseia em ideias de perda e de medo. O ataque neoliberal às populações do mundo não deixou de afetar os Estados Unidos. A maioria da população ficou estagnada ou sofreu alguma deterioração, ao passo que se acumulou uma riqueza impressionante em poucos bolsos. Também é importante advertir que Trump obtém um importante apoio de nativistas e racistas. Seus partidários, em sua grande maioria brancos, podem ver que está desaparecendo a imagem que guardam de uma sociedade dirigida por brancos.

Tempos atrás você evocou o surgimento de Hitler para referir-se ao surgimento de Trump. Em que sentido fez isso?

Vou citar o que disse: em um livro, publicado há mais de uma década, eu citava o eminente acadêmico da história alemã Fritz Stern, que escreveu no jornal da classe dominante Foreign Affairs sobre “a decadência da Alemanha que ia da decência à barbárie nazista”. Stern defendia o seguinte: “Hoje, preocupa-me o futuro imediato dos Estados Unidos, o país que acolheu os refugiados de fala alemã na década de 1930”, incluindo a ele próprio.

Com algumas repercussões para o aqui e agora que não poderiam passar desapercebidas a nenhum leitor atento, Stern examinava o demoníaco apelo de Hitler à sua “missão divina” como “salvador da Alemanha” em uma “transfiguração pseudo-religiosa da política” adaptada às “formas cristãs tradicionais” que dirigem um governo dedicado aos “princípios básicos” da nação, com “o cristianismo como a base da nossa moralidade nacional e a família como a base da vida nacional”.

Além disso, a hostilidade de Hitler em relação ao “Estado laico liberal”, compartilhada por uma grande parte do clero protestante, motorizou “um processo no qual o ressentimento em relação a um mundo laico desencantado encontrou sua liberação na fuga extasiada da irracionalidade”. Isso aconteceu muito antes que Trump aparecesse em cena.

Trump não é um fascista. Apenas tem uma ideologia coerente perceptível. Mas sua mobilização de setores religiosos racistas, ultranacionalistas e fundamentalistas religiosos, junto com um número considerável de pessoas que estão muito irritadas e ressentidas por terem sido marginalizadas, enquanto se implantam políticas para enriquecer e fortalecer os ricos e poderosos, é um perigoso caldo de cultivo, que de alguma maneira evoca o final de Weimar, de modo similar ao que escreveu Stern muito antes que o fenômeno Trump trouxesse estas tendências à superfície.

Quem, na sua opinião, ganhará a eleição presidencial?

Provavelmente, Hillary Clinton, mas não é uma coisa certa.

Sobre a Europa e suas políticas para enfrentar a crise dos refugiados, acredita que podem colocar em perigo o projeto de integração europeia?

Existe, com efeito, uma crise de refugiados em países pobres como o Líbano, onde um quarto da população é composta de refugiados da Síria, muito mais que os refugiados da Palestina e do Iraque. E no pobre país da Jordânia. E na Síria, antes de se lançar no suicídio coletivo.

Em geral, os países que na realidade enfrentam uma crise de refugiados não tiveram nenhuma responsabilidade na sua criação. A geração de refugiados é em grande parte responsabilidade dos ricos e poderosos, que gemem sob o peso de um fio de miseráveis vítimas, muitas vezes as vítimas de seus crimes, a quem podem acomodar facilmente. O mesmo vale para os Estados Unidos e a América Central.

Todo o assunto é um escândalo moral de primeira ordem; e certamente ameaça minar a integração europeia, uma grande conquista do pós-guerra. Se isso acontecer, será um triste comentário sobre a cultura europeia.

Qual é o seu olhar sobre a conjuntura política da América Latina?

Nos últimos anos, a América Latina, finalmente, moveu-se enfaticamente para libertar-se do domínio do Ocidente; no século passado, do controle dos Estados Unidos, e para enfrentar alguns dos seus graves problemas internos. O caminho não é fácil, existem retrocessos ao mesmo tempo que conquistas. Mas os progressos são muito significativos e cheios de promessas.

Que reflexão merece a situação no Brasil, depois da votação do impeachment de Dilma Rousseff?

Sem dúvida, houve muitos crimes cometidos pelas elites políticas e econômicas, em todo o espectro. E, portanto, quem os cometeu deve ser punido. Dilma é uma das poucas líderes políticas que está aparentemente isenta da acusação de agir em benefício próprio. As acusações contra ela são muito limitadas e não merecem um julgamento político, seguramente não nas mãos de uma quadrilha de ladrões, como observou inclusive a imprensa internacional. É justo considerar o que aconteceu no Brasil como um “golpe de Estado branco”, sem dúvida bem-vindo em Washington e, supostamente, com o apoio dos Estados Unidos.

A visita de Obama a Cuba pode ser lida como um sinal de mudança na política externa norte-americana?

No que diz respeito à sua decisão de política externa em relação a Cuba, os Estados Unidos ficaram isolados no continente, de fato no mundo. Finalmente se renderam e concordaram em dar alguns passos na direção da normalização, embora o bloqueio demolidor, condenado pelo mundo durante muitos anos, em grande medida continue em vigor. Os Estados Unidos, sem dúvida, vão continuar tentando recuperar o controle sobre Cuba, o problema mais antigo da política externa dos Estados Unidos, que remonta à década de 1820.

Sobre este ponto, sua política externa não está mudando. O que está mudando, isso sim, é que agora os Estados Unidos estão obrigados a levar em consideração os avanços significativos na América Latina. Não diria, então, que sua política externa esteja se modificando; pelo contrário, diria que é um sinal de que o poder dos Estados Unidos está diminuindo muito rapidamente.

Fonte: MST

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