Opinião

2023 foi um ano de ameaças à paz e da gestação de mudanças profundas nas relações internacionais 

28/12/2023

O dirigente comunista José Reinaldo Carvalho faz o balanço das principais tendências mundiais em 2023

Por José Reinaldo Carvalho (*) – O ano de 2023 ficará marcado na história como um período de graves ameaças à paz e da gestação de mudanças profundas nas relações internacionais, redefinindo equilíbrios de poder e colocando em xeque a superpotência norte-americana como força imperialista hegemônica. O avanço da multipolaridade se destacou como um dos elementos centrais deste cenário em constante evolução. Nesse quadro, um dos acontecimentos mundiais de relevo, com alcance estratégico e histórico, é a volta do Brasil ao cenário internacional, o retorno da voz ativa e altiva do gigante do Cruzeiro do Sul ecoando de novo em todas as latitudes uma mensagem de paz, igualdade entre as nações e multilateralismo genuíno, o que se tornou possível com a inauguração do terceiro mandato presidencial de Lula no primeiro dia do ano. 

                                                           Derrota das potências imperialistas na Ucrânia 

Um dos eventos mais impactantes é a derrota das potências ocidentais, lideradas pelos Estados Unidos, no conflito da Ucrânia. O embate chegou a um ponto decisivo em 2023, resultando em um revés significativo para o condomínio Estados Unidos-União Europeia-Otan, a despeito da maciça ajuda militar. Somente os Estados Unidos forneceram 112 bilhões de dólares e a Casa Branca enviou ao Congresso um pacote, que está pendente de aprovação, de mais 106 bilhões de dólares. Por sua vez, a União Europeia já despendeu 83 bilhões de euros para financiar o esforço de guerra do regime de Zelensky. Este gasto e as perdas econômicas geradas pelo aumento dos preços do gás russo acarretaram dificuldades econômicas consideráveis aos países ocidentais, principalmente europeus. Questões como inflação, desemprego e instabilidade financeira afetaram suas economias. A despeito de uma opinião pública mal formada pela desinformação e por campanhas de natureza russofóbica, o ambiente social às vésperas de completar-se dois anos da guerra, é de cansaço e percepção da  inutilidade do dinheiro gasto, quando sérias carências e desequilíbrios socioeconômicos se manifestam. Por outro lado, a Rússia conseguiu com engenho e habilidade contornar as gravíssimas sanções econômicas, manter e até desenvolver seu comércio internacional, captar investimentos e evitar a recessão.  

No campo de batalha, o exército russo conquistou uma vitória consagradora. As regiões de Donetsk, Lughansk, Kherson e Zaporizhzhia foram libertadas e hoje pertencem de facto e de jure ao território da Federação Russa. A Crimeia, que já tinha aderido à Rússia em 2014, manteve-se incólume. 

A Batalha mais importante do ano teve lugar em Artyomovsk (Bakhmut, na denominação ucraniana), com vitória completa das forças russas. Fracassaram todas as tentativas ucranianas de recuperar os territórios. Sua operação de contraofensiva foi inócua  e nenhum estado maior que analise a situação militar com alguma sensatez acredita que seja possível alterar o cenário. A Rússia venceu a guerra e não há outro remédio para o regime de Zelensky e as potências imperialistas ocidentais senão reconhecer tal fato e negociar os termos da derrota. Esfumaram-se os anúncios ruidosos  de vitória sobre a Rússia por parte da Casa Branca, do Pentágono e de Bruxelas, onde têm sede a Otan e a União Europeia, com a indefectível ajuda da mídia empresarial e de setores da “esquerda” cirandeira ou otanizada. Se querem salvar a honra e garantir algum futuro para suas estratégias securitárias no leste da Europa e no entorno geopolítico da Rússia, terão que primeiro aceitar a realidade e encarar o “novo normal” de uma Rússia triunfante, mais forte política e militarmente. 

                                                                                                     O Sul Global 

Fenômeno alvissareiro no ano de 2023 foi a emergência e a entrada em cena do Sul Global. Historicamente marginalizado nas relações econômicas, políticas e diplomáticas internacionais, o Sul Global revelou-se um protagonista de peso. Os países em desenvolvimento passaram a desempenhar papéis mais ativos em questões globais, buscando uma participação equitativa e propondo soluções para desafios comuns. A voz do Sul Global ressoou em debates sobre desenvolvimento sustentável, comércio e justiça social e, revivendo Bandung num contexto histórico inteiramente novo, volta a ganhar significado a luta por uma nova ordem mundial. É o que demonstram a ampliação do Brics, a retomada da Celac e da Unasul, a cúpula do G77 mais China, o sucesso da política chinesa de construir uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade, com a vitoriosa iniciativa do novo cinturão e da nova rota da seda e a crescente influência dos países do Sul Global em instâncias que eram dominadas pelo imperialismo estadunidense e seus parceiros, como o G20. A busca por uma nova ordem econômica internacional e uma arquitetura financeira mais justa não é mais uma aspiração distante, mas uma realidade emergente. A voz coletiva do Brics e dos países do Sul Global no G20 evidencia a determinação de mudar as regras do jogo, refletindo uma era em que as relações internacionais não são apenas ditadas pelos interesses dos potentados imperialistas, mas por outras perspectivas e objetivos. 

A 15ª Cúpula do BRICS, realizada de 22 a 24 de agosto em Joanesburgo, África do Sul, foi um momento alto da vida política e econômica mundial, cujos efeitos serão sentidos por muito tempo. Suas decisões constituem um salto qualitativo no processo incontível de afirmação da principal tendência do mundo contemporâneo, a de vigoroso desenvolvimento nacional com preservação e consolidação da soberania, de realização das aspirações dos povos à justiça e ao bem-estar, um direito sagrado que sempre foi vilipendiado pelas relações de desigualdade, opressão e exploração impostas pelos países mais fortes aos mais débeis, desde as metrópoles colonialistas de antanho até as potências imperialistas da atualidade. A Declaração de Joanesburgo, um alentado documento de 94 tópicos, é uma brilhante síntese de aturado trabalho diplomático, de uma preparação criteriosa, de debates aprofundados sobre as mais importantes questões ligadas aos esforços pela cooperação internacional, o desenvolvimento compartilhado e a paz. Uma peça lapidar em que pontificam valores supremos das relações internacionais, como o espírito de respeito mútuo, a igualdade soberana, a cooperação, a parceria e o esforço renovado pelos interesses comuns.

A Cúpula do Brics foi palco de uma decisão estratégica que ecoará por anos a fio: a expansão do grupo. A entrada de novos membros reforçou o compromisso com uma visão compartilhada de desenvolvimento sustentável, cooperação econômica e a promoção de uma nova ordem econômica internacional mais equitativa. 

Ao incorporar novos países, o Brics não apenas diversificou sua representação, mas também consolidou sua posição como um bloco influente, capaz de impactar as decisões globais. A ênfase em princípios como a multipolaridade e a igualdade destacou a determinação do Sul Global de tomar as rédeas de seu próprio destino.

Organizações regionais como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) ganharam novo fôlego. A Cúpula da Celac, realizada na Argentina no início do ano, destacou a importância da unidade regional na busca de soluções para desafios específicos da América Latina e do Caribe. Sob o lema “Integração e Desenvolvimento Sustentável”, os líderes presentes discutiram questões que vão desde a segurança regional até a promoção da inclusão social, a integração solidária e a busca da paz. Os países latino-americanos buscaram fortalecer laços e cooperar em áreas como segurança, economia e integração regional, reafirmando o compromisso com a autonomia e a autodeterminação. A cúpula também marcou avanços na cooperação econômica, com acordos comerciais e investimentos que visam fortalecer as economias latino-americanas e caribenhas. A criação de uma agência regional de desenvolvimento demonstra o comprometimento de impulsionar o crescimento econômico de maneira sustentável e inclusiva.

Por seu turno, a Cúpula do G20, que teve lugar na Índia no mês de setembro, foi palco de intensas lutas em que as posições das grandes potências ocidentais foram questionadas, tendência que se fortalece com o exercício atual da presidência brasileira que culminará com a realização da próxima cúpula no Rio de Janeiro em novembro de 2024.  

Um dos principais acontecimentos em que a voz do Sul Global ecoou pelo mundo foi a Cúpula do G77+China em Havana, Cuba, também no mês de setembro, que  reuniu líderes de 134 países em desenvolvimento, demonstrando a força e a coesão desse grupo diversificado. Sob o tema “Cooperação Sul-Sul em um Mundo em Transformação”, os participantes discutiram questões globais prementes, como mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza. 

Um dos marcos mais significativos foi a criação de um fundo conjunto para impulsionar iniciativas de desenvolvimento nos países membros. Esse fundo reflete o compromisso conjunto de enfrentar desafios comuns e promover uma abordagem inclusiva para o progresso global. Além disso, acordos bilaterais entre diversos países foram estabelecidos, fortalecendo laços econômicos e políticos. 

A Cúpula do G77 mais China também enfatizou a necessidade de reformas nas instituições internacionais para torná-las mais representativas e sensíveis às demandas dos países em desenvolvimento. Essa postura unificada do G77+China busca assegurar que as vozes dos países do Sul Global sejam ouvidas nos fóruns internacionais

                                                                                         Mundo multipolar 

O ano de 2023 revelou um mundo em constante mutação, desafiando a carcomida ordem mundial dominada pelos EUA e seus parceiros. A ascensão de novos atores, a reconfiguração das alianças e as mudanças nos equilíbrios de poder demonstram que a geopolítica global está longe de ser estática e o domínio unilateral dos EUA não é eterno. A aliança sino-russa emergiu como uma força consolidada. A cooperação estratégica entre China e Rússia tornou-se um elemento-chave na reconfiguração do cenário geopolítico. Essa parceria não apenas impactou as dinâmicas regionais, mas também influenciou decisivamente as discussões em fóruns internacionais.

O resultado das cúpulas do Brics, do G20, do G77 mais China e os encontros regionais no âmbito larino-americanos em 2023 solidifica a inevitabilidade de um mundo multipolar. O aumento da influência do Sul Global nessas plataformas internacionais não apenas desafia as estruturas de poder existentes, mas também representa uma rejeição coletiva às hierarquias impostas pelo neocolonialismo.

A multipolaridade é uma incontornável realidade marcada por contradições geopolíticas que podem favorecer o desenvolvimento das lutas dos povos. Mas ela por si só não representa a conquista da emancipação nacional e social nem o advento da paz. Objetivamente, pode engendrar também novos conflitos e ameaças.

                                                                                          Genocídio na Palestina 

O ano de 2023 termina com uma realidade trágica, o genocído perpetrado pelo regime de ocupação israelense na Palestina. Os sionistas israelenses cometem diuturnamente crimes de lesa-humanidade contra o povo palestino. O exército agressor, decidido a levar adiante o genocídio e o extermínio da população em Gaza,  bombardeia hospitais, escolas, igrejas, mesquitas, mercados, residências, praças, vielas, instalações da ONU e da imprensa. Assassinou mais de 20 mil palestinos. Está evidente quem são os terroristas. Em tais condições, são totalmente desprovidas de sentido afirmações de intelectuais, parlamentares e lideranças de partidos e movimentos sociais estabelecendo equivalência entre as ações violentas de Israel e a luta armada do povo palestino, protagonizada na Faixa de Gaza pelo Movimento de Resistência Islâmica Hamas. A luta heroica do povo palestino desempenha o papel de catalisador das mudanças no Oriente Médio, porquanto põe em xeque as posições estratégicas do imperialismo estadunidense e do sionismo israelense.

                                                                        “No espaço há um drama de treva e luz”

O curso dos acontecimentos no ano que termina confirmou as tendências de longo prazo à instabilidade, às turbulências, ameaças de intervenções e guerras emanadas das políticas agressivas dos potentados imperialistas. É o lado sombrio da realidade. 

Mas, como, parafraseando o poeta Castro Alves “, o século é grande e no espaço há um drama de treva e luz”, entramos em 2024 aceitando os desafios da caminhada, ainda que por ínvias encruzilhadas e trilhas perigosas, de prosseguir espalhando mensagens de esperança, unidade, resistência, batalha e miríades de combates por um mundo melhor, pelo progresso social, a igualdade, a emancipação nacional e social dos povos e a paz. 

___________________________________________________________________________________

(*) Jornalista, escritor, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB, onde é coordenador do setor de Solidariedade e Paz. Presidente do Cebrapaz – Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz

Compartilhe: