Opinião

Aliança EUA e Brasil contra a China na contramão dos interesses nacionais

21/07/2020

A política externa de Bolsonaro afronta a soberania nacional e atropela, mais uma vez, o Artigo 4º da Constituição. É mais um crime passível de impeachment, escreve o jornalista Umberto Martins

Por Umberto Martins (*)

Agindo como um fiel e vil vira-lata do presidente Donald Trump, o governo Bolsonaro decidiu ingressar nesta terça-feira (21) junto com os Estados Unidos com uma proposta na Organização Mundial de Comércio (OMC) estabelecendo que o princípio de economia de mercado tem de valer para todos os seus membros.

O alvo da ação é a China, acusada pelos imperialistas de Washington de não ser uma economia de mercado. O pano de fundo é o duelo pela liderança geopolítica do mundo. Tal conflito não é uma nuvem passageira na conjuntura, vai perdurar certamente pelos próximos anos e terá por provável desfecho uma nova ordem internacional, se antes não resultar numa guerra nuclear.

Superioridade do socialismo

Os Estados Unidos são uma potência em declínio. O capitalismo neoliberal proposto ou imposto pelas classes dominantes estadunidenses revelou-se um rotundo fracasso global, acentuado hoje pela pandemia do coronavírus. O socialismo de mercado chinês, que não exclui completamente relações capitalistas de produção mas é um sistema de produção liderado por um Estado comandado pelo Partido Comunista, demonstra ano a ano sua superioridade, por via do desenvolvimento desigual (traduzido nas taxas diferenciadas de crescimento do PIB).  

O contraste das estatísticas sanitárias e econômicas durante a pandemia também aponta na mesma direção. A próspera potência asiática foi rápida e eficiente na solução da crise sanitária, conforme atesta a OMC, e também é a que emite os primeiros e mais fortes sinais de recuperação da economia, depois de fortemente abalada pelas medidas drásticas adotadas para conter a doença.

Decadência irresistível

Do outro lado do Pacífico o cenário é desolador, com os EUA na liderança em infecções mortes pela Covid-19, amargando uma segunda onda, e o horror econômico da maior economia capitalista do mundo refletido em mais de 51 milhões de pedidos de seguro-desemprego desde meados de março até 15 de julho.

A ascensão da China afirma-se concretamente na história de forma tão irreversível quanto a sua contrapartida dialética, ou seja, a queda dos EUA. A guerra comercial desencadeada por Donald Trump não mudou o curso da história e as provocações na OMC também não vão reverter o rumo do desenvolvimento objetivo das economias.

A opção vira-lata do presidente Bolsonaro, amparada na irracionalidade anticomunista e numa ideologia torpe, neofascista, coloca o Brasil na contramão da história e não condiz, em absoluto, com os interesses nacionais. É uma vergonha para quem realmente tem espírito patriótica e uma desonra às tradições do Itamaraty, pautadas quase sempre ao longo da história por uma atitude soberana e independente.

Lembre-se que a China é a maior parceira comercial do Brasil. Os EUA foram por ela superados em 2009 e hoje estão bem atrás. Nada menos de 76% do saldo da balança comercial brasileira entre janeiro e abril veio do comércio com a China, comparado à média de 45% nos últimos anos. As relações comerciais e também financeiras do nosso país com os chineses são muito mais relevantes e proveitosas para o país do que com os EUA.

A vergonhosa submissão de Jair Bolsonaro a Donald Trump, associada a sanções dos EUA, também está travando a venda de dezenas de jatos comerciais da Embraer para o Irã, com prejuízos para a empresa e a balança comercial, conforme noticia o jornal Valor. A política externa de Bolsonaro afronta a soberania nacional e atropela, mais uma vez, o Artigo 4º da Constituição. É mais um crime passível de impeachment.

(*) Jornalista e escritor, autor de O Golpe do Capital contra o Trabalho

 

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