Opinião

O fantasma do comunismo está tirando o sono do ministro Araújo

24/04/2020

Por Umberto Martins (*)

O fantasma do comunismo, que parecia amuado e abatido desde a queda do Muro de Berlin, em 1989, complementada pela dissolução da União Soviética em 1991, reapareceu com força em meio a nuvens obscuras que esvoaçam sobre este Brasil desgovernado pelo Clã Bolsonaro. O pavoroso espectro não para de perturbar o sono do enigmático chefe do Itamaraty, Ernesto Araújo, personagem responsável pelas relações do país com a chamada comunidade internacional, fonte de piadas inacreditáveis e vexaminosas para a sofrida pátria.

O último pesadelo do ministro foi estampado no título de um texto publicado recentemente em seu blog dando conta de uma novidade fantasmagórica: “Chegou o comunavírus”. O artigo, que desperta boas gargalhadas em olhos críticos, foi cometido a pretexto de rebater ideias esboçadas pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek, o qual retrucou afirmando que o funcionário de Bolsonaro “não entendeu a questão”, ou seja, deturpou o sentido de suas reflexões.
Globalismo criou comunavírus

O comunavírus aparece nos sonhos agitados do chanceler brasileiro como a mais nova e perigosa transmutação do coronavírus, provocada deliberadamente pelo “jogo comunista-globalista de apropriação da pandemia para subverter completamente a democracia liberal e a economia de mercado”.

O projeto comunista ganha forma, neste jogo globalista protagonizado pelo temível fantasma (o mesmo que em meados do século 19 rondava a Europa, segundo registro do jovem Karl Marx), através, quem diria, da insuspeitável Organização Mundial da Saúde (OMS), que de acordo com o apavorado ministro está a ponto de assumir o poder mundial na forma de “uma agência central de ´solidariedade´ encarregada de vigiar e punir” (supostamente com o isolamento social para conter a pandemia).

“Transferir poderes nacionais à OMS, sob o pretexto (jamais comprovado!) de que um organismo internacional centralizado é mais eficiente para lidar com os problemas do que os países agindo individualmente, é apenas o primeiro passo na construção da solidariedade comunista planetária”, assevera Araújo, fiel discípulo do astrólogo e filósofo de orifícios Olavo de Carvalho.

Lacaio do imperialismo

As semelhanças do discurso do chanceler brasileiro com declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre um órgão criado no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) não são meras coincidências nem obra do acaso. Trump acusou a OMS de favorecer a China e decidiu reduzir substancialmente a contribuição do país para a instituição multilateral.

Araújo é um trumpista, declarado e fervoroso. Conseguiu transformar o Itamaraty num anexo da Casa Branca num momento de notória exacerbação da crise geopolítica global ensejada pelo declínio americano e o concomitante deslocamento do poder industrial para a Ásia.

No artigo em que noticia a chegada do comunavírus ao mundo, o ministro de Bolsonaro também faz questão de esbravejar contra a luta de mulheres, ambientalistas, negros, cientistas e outros segmentos progressistas da nossa sociedade, decretando que também estão a serviço do complô comunista global: “o comunismo não desapareceu, mas apenas dotou-se de novos instrumentos: o globalismo é o novo caminho do comunismo. O vírus aparece, de fato, como imensa oportunidade para acelerar o projeto globalista. Este já se vinha executando por meio do climatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo ou reorganização da sociedade pelo princípio da raça, do antinacionalismo, do cientificismo. São instrumentos eficientes, mas a pandemia, colocando indivíduos e sociedades diante do pânico da morte iminente, representa a exponencialização de todos eles.”

A favor do fã de Donald Trump é preciso reconhecer que ele não teme o ridículo e parece se comprazer, com conceitos temperados na paranoia, em inspirar piadas por aqui, e principalmente, no vasto mundo exterior. Suas ideias fantasmagóricas fornecem um rico material para obras de ficção. Seriam cômicas e inofensivas, não fosse trágico o fato de que, desgraçadamente, ele é o principal responsável pela política externa brasileira.

(*) Jornalista e escritor, autor de O Golpe do Capital contra o Trabalho”

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